domingo, 6 de novembro de 2011

Star Wars: Herança IX



Sua consciência regressou acompanhada de uma excruciante cefaleia, provavelmente, o efeito colateral da brusca colisão da testa de Ben Skywalker com os rígidos paralelepípedos que constituíam o solo da cripta. O Jedi, ainda sem abrir os olhos, administrou um exame corrido e, desse modo, superficial sobre o seu corpo a fim de averiguar os danos sofridos, surpreendendo-se ao descobrir estar em uma condição, moderadamente, saudável — pelo visto, os sete acólitos transfigurados haviam tido pena dele, ou algo parecido com isso.

Ben, então, livrou-se da sua autoprivação visual, sentindo os seus olhos arderem, brevemente, ao entrarem em contato com a luz pálida característica de Atoa que adentrava no aposento (uma prisão, sem a menor sombra de dúvida) por uma abertura quadrangular protegida por uma grade muito sólida, talvez feita daquele curioso minério empregado nas alabardas dos acólitos.

Repentinamente, a porta da prisão abriu-se e, por esta, uma pessoa foi arremessada sem uma gotícula de consideração por um homem trajado com as vestimentas dos clérigos atoanos, mas que tinha uma longa lança em suas mãos. Ben, o qual estava algemado, aproximou-se depressa daquela pessoa, não necessitando de palavras para desvendar a sua identidade, apenas os sentimentos — era Vestara. Extenuada e machucada, ela sequer tinha energia para proferir algumas palavras, contando, unicamente, com o seu olhar semicerrado para transmitir a sua mensagem de alívio por, enfim, estar na companhia de Ben outra vez.

Ele encontrou uma maneira de aninhá-la em seu peito, colocou os seus braços ao redor dela para escudá-la, ainda que precariamente, da frigidez da cela, sussurrou algumas palavras de conforto em seu ouvido e, quando ela deixou-se convencer como não somente era seguro como recomendável dormir um pouco, manteve-se acordado e vigilante, observando-a, atentamente, naquele sono profundo e sem sonhos. Para Ben, era incrível como ela conseguia ser, ao mesmo tempo, a origem da sua corrupção pelo Lado Sombrio da Força e aquela que nunca desistiria de conservá-lo envolto pela luz. Certamente, Mara Jade Skywalker teria gostado dela.

Mara Jade... Por um instante, a figura de sua mãe surgiu na mente de Skywalker, não como ele, normalmente, recordava-se dela, mas como naquele dia fatídico no qual descobriu o corpo desprovido de vida de sua mãe em um túnel em Kavan, o mesmíssimo dia em que seu primo, Jacen Solo, terminou sua queda da graça e fincou-se como um Sith, Darth Caedus. Ben até hoje possuía grande medo de seguir os passos do Jedi corrompido que tanto havia admirado no passado e, ao lembrar-se do início do seu confronto com Lorde Nazler, em como ser dominado pelas trevas era algo tão simples quanto adormecer, ainda mais sendo um integrante da Dinastia Skywalker, a qual detinha de uma longa história com ambos os lados da Força.

— Onde é que nós estamos? — perguntou Vestara, distanciando o companheiro daqueles seus devaneios.

— Eu não sei — Ben respondeu. Ele sentiu um aperto no coração ao escutar aquela sua voz tão enfraquecida. — Como você está se sentindo?

— Eu já estive pior — Vestara tentou desvencilhar-se dos braços que a envolviam na intenção de dispor-se frente-a-frente com Ben, entretanto como ainda estava convalescendo e, assim, um tanto abatida, falhou em sua empreitada. — Muito pior — ela, depois de tomar fôlego, acrescentou. — E você?

— Eu estou bem — o outro disse. — Ei, eu vou nos tirar da aqui, entendeu? Eu prometo — ele, que se considerava responsável por aquele episódio, sentiu a necessidade de dizer. Um genuíno traço dos Skywalkers: sempre carregando todos os pesos da galáxia em cima dos seus ombros.

— Ben... — a voz de Vestara tornara-se um tanto sonolenta. — O que quer que aconteça, você tem de me prometer que... — ela, sem nunca terminar a sua sentença, adormeceu e o rapaz a abraçou mais forte, como se pudesse protegê-la de todos os perigos do universo enquanto estivesse no limite dos seus braços.

Nesse momento, a imagem de Shira Brie, ou melhor, de Lumiya, a Lady Sombria de Sith veio à mente de Ben, ela — assim como reproduzida nos hologramas dos Arquivos — estava a alguns poucos metros de distância da beirada de um precipício e brandia o seu infame chicote-de-luz em direção a um adversário que logo se revelou como sendo um Luke Skywalker tomado pela melancolia oriunda da morte de Mara Jade.

Luke, atribuindo, então, o assassínio de sua esposa havia sido cometido por Lumiya, confrontou a ciborgue no planeta Terephon, pondo um fim a sua longa história de inimizade com ela ao decapitá-la, um ato estimulado pelo seu desejo de vingança que poderia tê-lo desvirtuado e, assim, o corrompido para o mesmo caminho tomado pelo seu pai. Felizmente, o Grande Mestre conseguiu perdurar um servo do Lado Iluminado da Força.

E, ao pensar nisso, Ben entendeu, finalmente, o porquê de ter, a princípio, pensado na morte de sua mãe: ele havia obtido sucesso em superar aquela tragédia, no entanto se algo viesse a ocorrer com Vestara... O jovem Skywalker soltou um suspiro e citou um ensinamento antiquíssimo para acalmar o seu coração e os seus pensamentos: “Sempre em movimento, o futuro está”.

Nada é absoluto.



AVISO! Contém spoilers da saga literária mais recente de Star Wars, Fate of the Jedi, e da HQ Darth Vader and The Lost Command.

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