
Da minha infância até os dias de hoje, eu sempre tive uma admiração inabalável pelo falecido Ayrton Senna. Em junho de 1991, ele proferiu a seguinte frase: “O medo faz parte da vida da gente”. Eu não poderia, possivelmente, concordar ainda mais com tal frase do que já concordo. O medo, para mim, é um elemento fundamental da vida, tão fundamental que consigo me recordar, perfeitamente, da primeiríssima vez em que eu me senti, genuinamente, amedrontado.
Era julho, o século XXI havia começado, eu tinha onze anos e estava passando as férias na casa do meu avô e da minha avó juntamente com um primo, Iago, o qual é mais velho do que eu dois anos. Eu e Iago somos criaturas presepeiras desde pequenos, nós adorávamos ter aventuras e sentir a flor da pele a adrenalina do perigo, portanto não era de se admirar que, tão logo pisamos naquela rua, fundamos um grupo com os outros meninos residentes ali. Iago era o líder, eu era o segundo-em-comando e Franklin, um amigo, era o nosso braço-direito.
Não demorou muito até que o nosso grupo entrasse em conflito com os meninos da rua detrás, por conta da proximidade de nossas casas, todos nós íamos à mesma praça e não tínhamos a menor vontade de dividir a quadra de futebol uns com os outros: nós, ou eles, nunca ambos.
Deu-se então início ao conflito: trinta e um dias em que corríamos para a praça e começávamos a brigar, usávamos pedaços de pau, cabos de vassoura, estilingues, pedras e tudo aquilo que pode ser empunhado por uma criança como arma. Dentre todos, Iago era o lutador mais forte, sua presença era o bastante para inspirar confiança em nós e nos fazer acreditar que poderíamos vencer as batalhas não obstante do quão ruim a nossa situação parecesse — ele era o nosso ídolo e, assim sendo, tinha de lidar com os moleques da rua detrás, constantemente, tentando emboscá-lo e comigo, diariamente, tentando derrotá-lo no quintal da casa do vovô.
Entenda, por favor, que eu não queria usurpar a sua posição de líder e tampouco nutria algum sentimento negativo para com ele, mas muito pelo contrário! Eu tinha uma admiração profunda por ele, via-o como meu herói e vivia a confrontá-lo unicamente pela emoção da batalha. Nós éramos apaixonados pela adrenalina do perigo, lembra? E nada era mais perigoso que enfrentar o Iago no mano-a-mano, Franklin considerava tal coisa como sendo suicídio, justamente por isso nunca tentou desafiá-lo a sós, ao invés disso optando se associar aos moleques da rua detrás, reuniu-se com o líder deles e daí traçou uma armadilha para Iago, de acordo com o plano, Franklin diria ter encontrado um cadáver no terreno baldio atrás da lojinha do “seu” Manuel, chamá-lo-ia para dar uma olhadela no defunto e então os moleques da rua detrás saltariam em cima dele, não pretendiam, obviamente, matá-lo, entretanto tinham a intenção de machucá-lo ao ponto de ele não poder mais participar na Guerra da Praça.
Iago, que não tinha conhecimento da ambição de Franklin em liderar o grupo, o seguiu para o terreno baldio e, como planejado, caiu que nem um patinho na armadilha: foi linchado impiedosamente e abandonado, todo machucado, naquele lugar, o sangue escorrendo da sua testa da paulada desferida por Franklin, aquele maldito traidor!
Eu logo achei estranha a ausência do Iago, ele não era do tipo que sumia assim de repente, só saía sozinho quando ia visitar a Rosinha, menina de quem gostava, mas nunca deixando de avisar ou a mim, ou o vovô. Fiquei encucado com aquilo e agoniado, convoquei o nosso grupo, falei que nem chegaríamos perto da praça naquele dia, pois a prioridade era encontrar o nosso líder — o meu primo.
Iago foi encontrado por mim, eu lembro tão claramente desse episódio como se tivesse ocorrido ontem: ajoelhei-me perante o corpo machucado e desacordado do meu primo, as lágrimas corriam sem parar pelo meu rosto, coloquei a mão em cima do seu peito para ver se o coração ainda batia e, oh, que alegria, ainda batia! Segurei-o junto de mim e, pela primeira vez em toda minha vida, eu me senti, genuinamente, amedrontado. O meu medo, porém, não era oriundo do fato de, finalmente, ter sido obrigado a aceitar que Iago, o meu ídolo, era uma pessoa como outra qualquer e não um messias detentor do poder de salvar a nós — salvar a mim — de todos os problemas. Não, não, não, não.
O meu medo era o de não ser o primeiro a encontrar o filho da puta responsável pelo que havia acontecido com o meu primo.
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