
Reinaldo Bragança era uma lenda vida, uma inspiração para todos os meninos e todas as meninas que tiveram a falta de sorte de nascer Jardim Sempre Verde, um bairro abarrotado de bandidos, drogados, bêbados, cafetões, prostitutas e vários outros tipos de escória.
Ele nunca roubou nada em sua vida, tampouco ingeriu qualquer droga ou bebida, não tinha nenhum relacionamento com os cafetões das redondezas e dos outros lugares e em momento algum havia ido para a cama com alguma prostituta — o Rei era, em suma, um santo nascido no reino do pecado.
Foi o “seu” Manoel quem descobriu o talento do Rei para o boxe, tomou-o debaixo da sua asa, deu a ele o melhor dos treinamentos para lapidá-lo, arranjou lutas aqui, ali e acolá, viu-o subir os degraus do reconhecimento e do estrelato, recusou, polidamente, o pedido do Rei em continuar a treiná-lo agora que ele havia ganhado o campeonato, “Os meninos da academia precisam de mim, eu não posso abandoná-los”, partiram em direções diferentes naquele dia, contudo a amizade nunca padeceu: uma vez por ano, o Rei retorna à sua antiga academia, conversa com o “seu” Manoel para pôr os papos em dia e enfrenta de bom grado um pugilista escolhido pelo velho treinador, nunca perdendo o confronto.
Eu quem fui escolhido pelo “seu” Manoel esse ano. Meu nome é William e eu...
— Você não tem a mínima chance — o velho Manoel, em seu escritório, disse para mim. — Não faça essa careta. É a verdade.
Abriu sua garrafa de uísque, ele serviu duas doses, uma para si e uma para mim, algo que fazia, unicamente, em ocasiões especiais como, por exemplo, a visita do magnânimo Rei.
— Você é bom, William, muito bom. Disso não há dúvida. O problema é que você não é nenhum rei ou imperador, é um bom pugilista e somente isso, então você não tem a menor chance de vitória, não se esqueça disso nem por um momento amanhã.
O treinador antecipou a minha réplica.
— Nem pense nisso, William. Nem pense nisso. Se você for com tudo que nem um touro indomável para cima dele, ele irá para cima de você que nem um deus enfurecido e, preste atenção nisso, você não é uma porra de Cavaleiro do Zodíaco, quando estiver largado lá no chão, todo arrebentado, não tirará força de dentro do cu para se levantar e mudar o curso da porrada. Respeite o homem e ele o respeitará de volta, agora caía fora, vá para casa, vá, vá, eu não quero vê-lo até a hora do porradeiro, entendido? Ótimo, xô!
O que eu podia fazer, hein? Nada além do que me foi mandado, então, cabisbaixo, voltei para casa, jantei a comida da mamãe, assisti ao último episódio da novela e fui dormir pensando na luta. E daí que eu não tivesse chance? Eu estaria pisando no mesmo ringue que o Rei, isso já era o bastante para me deixar feliz que nem um campeão!
— Você quem é o novo menino do velhinho? Prazer em conhecê-lo, rapaz — disse o Rei, apertando a minha mão. — Você tem cara de quem aguenta umas boas pancadas, acho que será uma boa luta.
Ele me deu uma batida leve no ombro, me desejou boa sorte e subiu no ringue. Antes de eu encontrá-lo lá em cima, “seu” Manoel me chamou para dar uma palavrinha, “Nada de ir com tudo”, e dizer para eu me divertir bastante enfrentando o meu ídolo.
O treinador soou a campainha e a luta começou, o Rei me acertou casualmente, não estava levando aquilo a sério, era uma brincadeira para ele, logo não fazia o menor sentido ir com força total, eu, por outro lado, via aquela como a luta da minha vida e não podia agir com maior seriedade, golpeei-o de todos os jeitos a mim ensinados pelo “seu” Manoel nos últimos anos, bloqueei algumas das investidas de Vossa Majestade que, acidentalmente, não conseguiu moderar na força durante um jab e acabou machucando feio o meu rosto.
— Você está bem, rapaz? — o Rei, um tanto desassossegado, perguntou. — Dá para continuar?
— Dá sim — foi a minha resposta apesar da dor sentida. O homem devia ter tijolos dentro das luvas!
O Rei, depois de ter me machucado, ficou apreensivo e passou a me tratar como se eu fosse uma boneca de vidro, tomava cuidado, evitava me acertar, adotou uma atitude defensiva, apenas rebatia os meus golpes e dizia que eu estava indo muito bem... Talvez tenha sido por tanto ter escutado “Você está indo muito bem, rapaz” que eu me emputeci: olhei para o “seu” Manoel, ele balançou, negativamente, a cabeça, eu não dei a menor confiança, estalei o pescoço, bati as luvas e fui para cima de Vossa Majestade que nem um touro indomável.
— Ôpa, ôpa, calma aí, rapaz, isso aqui é só um treino!
Minha voz explodiu.
— Não para mim.
O recado foi entendido. O Rei soltou um suspiro, mirou por um instante o “seu” Manoel como quem diz “Ei, é ele quem está pedindo por isso”, esperou que o velho desse um sinal positivo e, ao recebê-lo, me concedeu uma das imagens mais belas e aterradoras da minha vida: a de um deus enfurecido. Cada singelo golpe desferido por Vossa Majestade tinha intensidade suficiente para quebrar o oponente: se antes eu senti como se houvesse tijolos dentro das suas luvas, agora parecia haver blocos de concreto, mais de uma vez eu não pude deixar de pensar que ele me mataria no próximo acerto.
E quando o próximo acerto, finalmente, veio, não deu outra: eu beijei a lona. Caí que nem uma sacola de pedras atiradas de cima de um edifício de dez andares, meus sentidos estavam atordoados, a voz do “seu” Manoel fazendo a contagem parecia ecoar de longe, o meu corpo estava pesado e tudo doía — de jeito nenhum eu me levantaria dali, aquilo era o fim para mim, minhas congratulações ao Rei por ter me derrubado sem ter derramado uma gota do próprio sangue.
Então, em um milésimo de segundo, eu pensei: qual é o ponto disso?
Qual é o ponto de enfrentar o Rei sem ir até o final? Não faz sentido. É morrer na praia. Eu nunca contei com a possibilidade de vencê-lo, até porque tal possibilidade é nula, entretanto eu sempre soube que tinha capacidade para aguentá-lo até a última rodada, então por que eu estava arrebentado no chão, completamente de acordo com essa derrota prematura? Não, não, não. Isso está errado. Eu não sou assim. Eu vou até o final das minhas batalhas. Quebrar o meu corpo não é difícil, agora quebrar o meu espírito... Ah, pode ter certeza de que isso é impossível.
Eu — não sei como — fiquei de pé e, todo arrebentado, malmente enxergando, o encarei ainda como um touro indomável.
— Até o fim.
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