quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Pai, filho





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O sonho iniciou-se no estacionamento do meu antigo colégio, eu estava ali com a minha irmã e a minha mãe, a qual se encontrava pendurada no celular, tentando — sem sucesso — falar com o meu pai. Eu abri o porta-luvas do carro e descobri o celular do meu pai no modo vibra call como era do seu costume, atentei mamãe para o fato, ela vomitou um palavrão aborrecido e encerrou a ligação. Nós estávamos todos preocupados porque, aparentemente, papai desaparecera há algum tempo.

Seu sumiço terminou alguns segundos depois daquilo: papai apareceu no estacionamento, o seu rosto estava esquelético, tinha bolsões pretos embaixo dos olhos cansados, perdera muito peso, o seu corpo estava banhado em suor e a palidez da sua pele poderia pertencer a de um cadáver. Mamãe gritou pelo nome dele, minha irmã desatou-se a chorar, abalada por aquela figura e eu — de alguma maneira — sabia o que se sucedera com ele: papai havia tomado um drink no inferno. Literalmente.

Eu o apanhei pelo seu braço, disse para que ele me seguisse, guiei-o para o interior da minha antiga escola, indo, diretamente, para a lanchonete onde comprei duas garrafinhas de água — uma para mim e outra para ele —, aguardei enquanto o líquido da vida era ingerido, então, conduzi-nos para outro ponto daquele lugar, o corredor situado atrás do ginásio exceto que, naquele sonho, a passagem estava longe de ser, meramente, uma parte da escola e sim um pedacinho do inferno, o Corredor das Tentações para ser mais exato.

De um lado, jazia uma arquibancada contendo pessoas com demônios sibilando palavras de tentação em seus ouvidos ao mesmo tempo em que, do outro lado, uma peça macabra era ensaiada exibindo outras versões daquelas pessoas — o seu “eu” perverso — engajando-se nas atividades que condenaram a extirpação de Sodoma e Gomorra da face da Terra. Nós ocupamos um lugar próximo a um demônio feminino, uma mulher belíssima dos cabelos castanho-escuros que usava brincos perolados e vestia um vestido vermelho-escarlate de noite, ela sorriu com luxúria para nós, meu pai falhou em perceber o gesto e eu a ignorei: precisava manter-me incorruptível para, assim, garantir que papai testemunhasse as ações do seu outro “eu” sem deixar-se levar pela tentação de cometê-las, pois esta era a única maneira de salvar a sua alma.

Eu entrelacei os meus dedos nos dos do meu pai e disse a ele para olhar independente do quão hórrido fossem as cenas exibidas perante nós. Aquilo era essencial. O demônio feminino sentiu-se ameaçado pela intensidade da minha determinação e força de vontade e, para corromper-me, a criatura cravou os seus caninos na minha mão livre, penetrando, dolorosamente, na minha carne. Eu mordi o lábio inferior e aguentei a agonia com resignação, visto que uma reação violenta da minha parte poderia colocar tudo a perder e nada desde o Big Bang impedir-me-ia de resgatar a alma do meu pai. Nada.

Infelizmente, eu sou um ser humano e, portanto, imperfeito: vi-me sobrepujado por aquela dor excruciante, puxei a minha mão para longe daquela criatura maligna e, em retaliação ao seu ato, eu cerrei, brutalmente, o meu punho ao redor do seu pescoço fino, podia escutar, inclusive, o som da sua laringe cedendo à força exercida pelos meus dedos — eu teria arrebentado o ducto daquele ser vil sem pestanejar caso não houvesse vislumbrado a figura do meu pai pelo canto do olho: ele estava de olhos fechados e, agora, o seu outro “eu” deixara o palco do teatro macabro, vinha em nossa direção para consumir a alma do meu pai e assumir o seu lugar no mundo. Mea culpa.

Eu desviei minha atenção, solenemente, para o papai, esbofeteei o seu sonho enquanto dizia, aos gritos, para ele acordar — “Pai! Pai! Pai! Acorde! Pai, o senhor precisa acordar!” —, a distância era encurtada pelo meu Outro Pai, logo, eu já podia sentir a sua respiração na minha nuca, ele estendeu os seus braços, vislumbrei as suas mãos passarem do meu lado para tocar o rosto do meu pai, antes que o fizesse, porém, eu agarrei o corpo de papai com um abraço apertadíssimo que poderia durar para sempre e, debulhando-me em lágrimas, proclamei: “Pai, por favor, acorde! Nós precisamos do senhor! Pai! Pai! Pai! Eu te amo, pai! Por favor, não me abandone!”.

O meu pai abriu os olhos e tudo ficou bem.

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