domingo, 5 de fevereiro de 2012

Noite de pôquer


Era uma noite de quarta-feira com lua minguante, o pôquer seria no apartamento de Bartholomew na Av. 4 de Outubro e eu já estava atrasado devido a uma refeição um tanto demorada. Lancei-me para dentro do primeiro táxi que surgiu próximo àquele beco escuro e fui atendido pelo próprio Bartho quando surgi diante da sua porta, ele me cumprimentou com um abraço fraterno e convidou-me a entrar na sua humilde morada onde já se encontrava um casal, Louie e Renée.

Ele brincava com os longos cabelos loiro-platinados da sua companheira ao passo que ela tinha a sua atenção, inteiramente, voltada para os frascos de sangue depositados sobre a mesa, mordia os lábios sedentos com caninos pontiagudos e estava morrendo de vontade de deliciar-se com uma dose de sangue AB negativo. Veja bem, para nós, dinheiro não é importante, desse modo, nosso jogo é feito apostando não fichas, contudo frascos de sangue que o anfitrião deve, educadamente, fornecer aos seus convidados. Vale salientar que o valor do sangue é, diretamente, proporcional à sua raridade.

Cumprimentei Louie com um aperto de mão, beijei minha “filha” com carinho em seu rosto e, então, me coloquei a sentar defronte para o casal, Bartho veio se acomodar ao meu lado, adotou a posição de dealer, dividiu o baralho e declarou o início da partida, a qual foi, prontamente, vencida por Renée, algo mais do que esperado: ela, em sua vida, aprendera com seu pai legítimo a blefar e a trapacear como um profissional, uma habilidade muitíssima útil, no entanto incapaz de impedi-la de fincar as suas presas naquele homem horrível e secá-lo até a morte.

A princípio, eu creditei a tristeza e o desânimo de Bartho ao fato de ele, apesar da sua longuíssima existência, estar tendo o seu sangue usurpado por uma “garotinha”, entretanto notei, com o passar do tempo, que o motivo para isto deveria ser outro, pedi para pausar a partida por um instante, daí virei-me para o meu amigo e indaguei a ele sobre sua aparência macambúzia. Ele, então, narrou à origem da sua melancolia.

“Eu estava andando pela noite outro dia quando tive a minha atenção capturada por uma moça. Ela era — de acordo com o padrão contemporâneo — estonteantemente bela. Belíssima! Cessei a minha andança para observá-la, admirá-la: olhos verde-escuros, cabelos escuríssimos, bochechas rosadas, um corpo escultural e tão cheio de vida! Aproximei-me dela, seduzi-a, saboreei-me com o gosto delicioso dos seus lábios e, então, eu a convidei para ir a um lugar mais reservado. Atraí-a para um beco escuro há mais ou menos dois quarteirões da boate, silenciei-a com a pressão da minha força de vontade e daí exibi as minhas presas”, ele olhou para mim, “Você sabe como é, Nathaniel. Eu deleito-me ao sentir o terrível pavor da morte que floresce no âmago da nossa vítima quando ela descobre estar condenada a uma morte dolorosa por uma criatura que, por toda a sua vida, acreditou ser tão verdadeira quanto o mais bobinho dos contos-de-fada”, Bartho forçou um sorriso ao seu rosto, “Tal prazer, entretanto, foi-me negado por aquela moça: ao invés de tentar gritar, espernear, ou mesmo de tentar lutar pela sua vida, ela lançou a cascata de negrume para trás que eram os seus cabelos, exibindo o seu pescoço perolado e disse ‘Morda-me. Morda-me e eu ficarei, eternamente, ao seu lado, meu amor’. Suguei até a última gota do seu sangue, deixei-a, completamente, seca, um pedaço de carne estirado ao sol”, meu amigo calou-se por um momento antes de finalizar o seu relato, “Então, voltei para cá, pensando ‘Maldita seja a Saga Crepúsculo!’”.

***

Apesar de este conto ter sido, essencialmente, feito para sacanear a Saga Crepúsculo, eu ainda pretendo escrever um texto analisando tal saga de acordo com aquilo que assisti nos seus filmes. Sim, eu assisti aos filmes da Saga Crepúsculo. O que eu posso dizer em minha defesa? Bem, apenas uma coisa: tenho uma namorada.


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