
Era o domingo de uma semana, particularmente, estressante devido a uma série de fatores, dentre estes, os assuntos da universidade. Mesmo assim, eu consegui manter a minha promessa de acompanhar Miriana ao cinema para assistir o seu filme preferido da Disney em qualidade 3D, O Rei Leão. Fui pegá-la em casa, fiquei esperando por um tempinho enquanto ela terminava de se arrumar, troquei umas palavras com o pai dela, o qual assistia ao jogo do Flamengo, e então eu e ela descemos do prédio.
O shopping e, por consequência, o cinema dispunham-se perto do apartamento, logo nós seguimos a pé para o local, uma caminhada rápida de dois quarteirões pelo centro extraoficial da cidade, a Doca. Na hora de atravessar a última rua antes do shopping, captei de relance a presença de uma garota gordinha, baixinha e de cabelo curto que vestia uma camisa do The Strokes, a minha memória, que, modéstia à parte, é excepcional, obteve sucesso em reconhecê-la de imediato e eu, embora parado no meio da rua, virei-me para olhá-la e, então, qualquer dúvida da sua identidade se dissipou no ar. Era ela, minha ex-namorada e uma garota que magoou, terrivelmente, o meu coração.
Houve um acontecimento estranho naquele instante, não sei se limitado à percepção da minha mente, ou se um fenômeno, o qual, de fato, distorceu a realidade por uns segundos, eu posso afirmar, no entanto, que, para mim, ela recuperou, brevemente, a aparência da garota por quem me apaixonei tão perdidamente no passado, magrinha, ainda pequenina, com longos cabelos pretos, lenço laranja na cabeça, um piercing adorável no nariz, uma camiseta do The Smashing Pumpkins, um jeans desbotado e tênis All-Star do Chuck Taylor.
Aquela foi uma visão que, como mencionado acima, durou um intervalo curtíssimo de tempo, contudo tempo suficiente para me inundar com nostalgia, bombeando minha mente com uma enxurrada de boas memórias, talvez as melhores do nosso relacionamento... O primeiro beijo, o primeiro toque, as nossas conversas com madrugadas inteiras de duração, os lugares que sonhávamos em visitar e aquele fatídico e inesquecível momento no qual ela confessou amar azeitonas.
— Por que tão sorridente? — perguntou Miriana.
— Ah, por nada em particular — eu, tonteado pelo devaneio, respondi. — Nada demais — o sorriso, porém, continuou no meu rosto.
“As lembranças que eu mantenho sempre comigo são as mais felizes. As tristes, tô deixando para trás”.
— Bianca Q.
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