
Do outro lado da rua havia uma janela, durante muito tempo, tudo que podia ser visto além dela era um quarto desocupado, trancado e repleto de poeira por onde à noite alguns roedores passeavam sem nenhuma preocupação em suas mentes.
Eu me lembro de ficar horas e mais horas fitando aquele lugar vazio quando não conseguia pensar em nada para escrever, houve uma vez em que Maria, minha noiva, tomou um susto ao me encontrar ali, completamente hipnotizado pela imensidão que jazia além do vidro, ela me tirou do transe ao gritar o meu nome várias vezes, sacudi a cabeça e, um tanto atordoado, fitei-a sem entender exatamente o que estava ocorrendo, “O que está vendo aí, hein?”, ela, enciumada, quis saber, acertou um escorão em mim sem me dar a oportunidade de responder, botou o torso para fora da nossa própria janela e lançou um olhar intimidador para o outro lado da rua que no decorrer de segundos se tornou um olhar confuso, “Não tem nada”, ela disse, “Para o que você estava olhando?”.
“Para o outro lado da rua”, eu respondo, “Mas não tem nada lá”, ela diz, “Pare com isso, me conte logo”, posso sentir a curiosidade transbordando dentro dela, minha vontade é a de continuar com minhas vagas palavras, “Para o outro lado da rua”, mas então ela põe em seu rosto um pedido carinhoso, algo que derrete o meu coração e não tem jeito, eu caio na armadilha e esclareço sua curiosidade, “Quando você olha para lá, o que vê?”, indago, ela diz “Um quarto vazio” ao que replico “Eis que está: enquanto você, ao olhar para lá, não vê nada, eu, ao fazê-lo, vejo infinitas possibilidades, imagino os móveis que poderiam estar ali, as pessoas que poderiam viver; as conversas, os ratos, as aranhas, tudo isso, eu olho para lá e deixo a minha imaginação correr solta que nem uma criança em uma casa de brinquedos. É isso que eu faço para escrever”.
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