Ele tinha uma vida de merda, um diploma do Ensino Médio, um emprego ruim, um sem-número de romances fracassados, uma puta dor de cabeça e, olhe só, não havia um único analgésico no armário do banheiro nem uma garrafa de cerveja dentro da geladeira.
Então, o que fazer? Colocar o casaco, calçar as sandálias, pegar a carteira e gastar os últimos vinte reais na farmácia do outro lado da rua e no barzinho xexelento do “seu” Pereira dobrando a esquina.
Ele comprou uma cartela de paracetamol e duas garrafas de cerveja, engoliu uma pílula do analgésico, juntamente, com alguns mililitros da bebida, soltou um arroto com cheiro de cebola — havia jantado um hambúrguer com cebolas fritas — e contemplou o seu futuro naquela noite. Não queria voltar para o quarto no cortiço, então resolveu dar uma caminhada por aí.
— Tem tido muitos assaltos por aqui ultimamente — alertou “seu” Pereira.
Um sorriso amarelo apareceu no seu rosto.
— E daí? — ele abriu os braços. — Não é como se eu tivesse algo para roubar.
O velho moreno coçou a cabeça.
— Esses moleques podem te matar, Jefferson.
Ele abandonou a mão de um jeito despreocupado.
— Que me matem, então! — riu. — Eu adoraria não ter que pagar aquele montão de contas.
Não tinha nenhum lugar em mente para ir, desse modo, ele permitiu que fosse guiado pela “vontade” dos seus pés, vagando, despreocupadamente, pela penumbra das ruas, devorando analgésicos, sorvendo cerveja e, eventualmente, parando para descansar perto de um canteiro de flores na parte mais afastada do Parque Central. Há muitos anos que não pisava naquele lugar, mais de dez anos, talvez.
Ele abocanhou a última pílula e bebericou a última gota de álcool, abandonou a cartela e a garrafa em cima da grama, sentiu uma tonteira repentina e algo subindo pela sua garganta, vomitou em jato, sujando o chão de concreto à sua frente, fechou os olhos, pôs as mãos na cabeça, sentia-se mal, queria dormir, queria deitar numa cama quente e de colchão confortável, uma cama tão diferente da qual esperava por ele de volta ao cortiço.
Um ruído estranho alcançou o seu ouvido, era similar ao de várias conchinhas sendo batidas contra uma superfície de madeira, abriu os olhos com intuito de encontrar a fonte do barulho, ao fazê-lo, foi pego de surpresa por uma ofuscante luz branca vinda do alto que parecia queimar as suas retinas.
Do interior da luz, uma silhueta escura de aspecto humanoide surgiu, deveria ter algo em torno de dois metros, sua cabeça era redonda e grande, tinha um corpo esguio, as mãos possuíam dedos longos como os de um portador de aracnodactilia e estendiam-se em direção a ele.
Ele não tinha a menor ideia se aquilo era real, ou irreal, e, honestamente, não fazia a menor diferença, pois qualquer coisa — qualquer coisa mesmo — era melhor que a sua vida de merda, o seu diploma do Ensino Médio, o seu emprego ruim, o seu sem-número de romances fracassados e aquela puta dor de cabeça que perdurara apesar dos comprimidos.
Ele esticou a mão e os seus dedos tocaram os da criatura. Não havia mais volta.
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