
O Único e Eterno Rei morreu. Seu reino, o berço da civilização moderna, fragmentou-se em um punhado de feudos governados por soberanos que, no passado, pertenceram à Távola Redonda. Um a um, cada velho e honrado cavaleiro padeceu mediante a envergadura do exército reunido pela Rainha-Bruxa e pelo seu campeão imbatível envolvido por uma armadura encantada feita, inteiramente, de ouro, sua capa é tão vermelha quanto o sangue, seu elmo chifrudo lhe garante a aparência intimidadora de um demônio superior e ninguém jamais sobreviveu a um vislumbro da sua lâmina dourada.
Ele, agora, cavalga seu garanhão preto pela imensa escuridão da Floresta Savage onde, há tantos anos, deu-se início à lenda do Único e Eterno Rei. Ali, o cavaleiro de ouro procura um criminoso do passado caótico, um feiticeiro enfraquecido que deverá morrer pela sua mão antes de, uma vez mais, tornar-se uma ameaça ao domínio de Vossa Majestade, a Rainha-Bruxa.
A jornada tem o seu fim na entrada estreita de uma caverna de cristal no coração da floresta, o campeão amarra seu cavalo em uma árvore, então, avança corajosamente para o interior da fenda escura. Sua imagem é distorcida pela aleatória disposição dos cristais, o ar é quente como o hálito de um dragão; sussurros distantes de maldição interrompem o silêncio fúnebre e um velho decrépito surge em uma câmara, solenemente, iluminada pela luz do sol vinda de uma abertura no teto alto.
— Quem é? — o velho, sem olhá-lo, indaga. Ele está sentado na margem de um olho d’água, corre uma mão pelo líquido esverdeado, deformando a imagem ali refletida.
— Um mensageiro da rainha.
— Ah, um ceifador! — diz o velho, às gargalhadas. — O que a tua rainha quer de mim?
— O teu poder.
O cavaleiro desembainha sua espada enfeitiçada e a finca no chão rochoso com brutalidade.
— Dá-me o teu poder e eu te permitirei viver, velho homem.
— Eu temo que isto não seja possível.
— Que assim seja.
O Feiticeiro vira-se para encará-lo ao mesmo tempo no qual o cavaleiro empunha sua arma de ouro, ele a põe em frente ao seu corpo para proteger-se de uma esfera flamejante que explode ao tangenciar com o metal, daí brande sua espada para defletir outra esfera chamejante, entretanto comete um erro durante esta ação: estende demais o braço. Seu adversário percebe a falta e dela se aproveita, lançando uma enxurrada de raios elétricos que atingem, violentamente, a couraça dourada.
O metal conduz a eletricidade, contudo a magia de sangue protege o seu usuário. Ele, em seu íntimo, agradece a proteção concedida pelo sangue dos seus irmãos, resiste à ferocidade do feitiço, avança — um passo de cada vez — na direção do Feiticeiro; intimida-o com a ataraxia da sua máscara dourada, concentra a força elétrica na lâmina, ergue-a para afastar os males do seu corpo, percorre a distância até o velho homem e o corta no peito com o poder combinado da magia da Rainha-Bruxa e a sua própria eletricidade.
Colapsa ao chão, o Feiticeiro enfraquecido, o sangue goteja ininterruptamente, seu corpo inteiro treme sem parar, tem a respiração ofegante e jaz desprovido de cabelos, de dentes e de unhas. É uma sombra do seu antigo “eu”, do mago onipotente que perdeu tudo em uma armadilha denominada amor — “Oh, Nimué! Por quê?”, o velho choraminga. Que deplorável. O campeão fica ao seu lado. Ele ergue a lâmina. É o momento derradeiro. É o momento em que o Feiticeiro revela sua própria armadilha.
O velho moribundo transfigura-se num colossal dragão vermelho cujas enormes asas eclipsam a abertura no teto, o réptil demoníaco captura o inimigo com suas garras poderosas, quer esmagá-lo com toda a tenacidade do seu ser, abre a boca gigante, expele uma baforada coruscante para queimá-lo vivo, precisa matá-lo a qualquer custo, isto tem de terminar ali e agora. É uma oportunidade única: se o ceifador padecer, então, o Feiticeiro terá o tempo necessário para recuperar a plenitude do seu poder.
O cavaleiro de ouro recusa a morte, ele empurra as garras, chuta em todas as direções, liberta-se da sua prisão escamosa, salta no peito já ferido da criatura mágica, segura o punho da sua espada com ambas as mãos, visa o coração, crava a sua lâmina no órgão pulsante que jorra um oceano de sangue vermelho-escuro ao ser perfurado e o homem transfigurado retorna à sua forma original, um ente humilde e ferido cujo tempo esvai-se velozmente.
— MOSTRE-ME! MOSTRE-ME O TEU ROSTO, CEIFADOR! — o Feiticeiro, enlouquecido pelo sofrimento, ordena. — MOSTRE-ME A FACE DA MORTE!
Seu inimigo atende aquele último desejo, retira o seu elmo e o velho moribundo amargura-se ao vislumbrar um semblante tão similar ao do menino Wart que amara ternamente.
— Por quê? — ele, aos prantos, indaga. — Por quê? — o sangue começa a preencher os seus pulmões. — Por que tu traíste a tua linhagem de Pendragon? — o Feiticeiro cospe no rosto descoberto. — Maldito seja tu, Criança do Infortúnio! Maldito seja eu por tê-lo salvado! Eu deveria tê-lo abandonado para morrer naquele rio! Eu te amaldiçoo! Eu te condeno a morrer pelo teu próprio sangue! Eu te amaldiçoo, Arauto da Destruição!
O ouro corta a garganta do derrotado, o sangue unta a lâmina, sua magia é absorvida pelo metal reluzente, fortalecendo-a, enaltecendo os feitiços sombrios construídos pela Rainha-Bruxa com o sangue do Clã das Órcades. Agora, somente resta o sangue abençoado do Cavaleiro do Lago, o último campeão da Era de Ouro.
O cavaleiro dourado guarda sua arma e retorna à floresta, lá ele apanha madeira suficiente para armar uma pira na câmara do feiticeiro, carrega o corpo desfalecido para o topo da estrutura, ateia fogo a esta e permanece em silêncio respeitoso. O solo da Caverna de Cristal é coberto por cinzas e Mordred abandona aquele lugar pela eternidade. Longe dali, o Cavaleiro do Lago recupera sua sanidade e empunha sua espada sagrada. Ele espera.
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