quarta-feira, 15 de agosto de 2012

Um conto arthuriano (ii): O Cavaleiro do Lago


À beira de um lago sereno, há uma humilde capela em cujo interior jaz o corpo falecido de uma bela dama protegida da crueldade do tempo por um invólucro de cristal. Em frente ao lugar sagrado, há um cavaleiro sentado em um toco de árvore, sua armadura, antes reluzente, perdeu seu brilho, uma densa camada de sujeira esconde grande parte do metal, sua cabeleira maltratada é como a juba de um leão selvagem e uma névoa de catatonia preenche o azul-claro do seu olhar distante. Ele é, no momento, como uma estátua de pedra.

Dia após dia, o Cavaleiro do Lago permanece imóvel e em silêncio, guardando o recipiente vazio da alma que amou como nenhum outro homem jamais amou uma mulher. Na maior parte do tempo, ele também é vazio, perdido em devaneios do passado, em dias mais felizes onde teve o grande amor ao seu lado e a lealdade de um amigo inestimável.

Retorna, então, à realidade abruptamente quando santidade do lago é violada pela figura de um demônio de ouro envolvido por uma bruma maligna.

— Vá embora — o Cavaleiro do Lago ordena.

— Não.

— Vá embora — ele levanta-se, exibindo a sua altura superior. — Agora.

— Não.

— Tu morrerás.

— Tu tentarás.

O santo cavaleiro brande a sua espada enlameada em um golpe bruto que colide, rudemente, com a lâmina dourada, ele intensifica a força em sua arma, contudo o campeão da Rainha-Bruxa não recua, pelo contrário, ele avança, empurra a espada suja para longe, chuta o peito do Cavaleiro do Lago e tenta decapitá-lo com toda a ferocidade de Arawn, sua lâmina maldita.

Entretanto, o adversário reage, bloqueia o ouro, rodopia para adquirir velocidade e força e perfura a magia protetora da armadura, ferindo Mordred em sua perna esquerda, portanto, revelando-se como o ceifador de Gawain, de Gaheris e de Gareth cujo sangue resguarda a vida do jovem irmão — ele é o único homem no mundo capaz de sobrepor a magia da Rainha-Bruxa. Mordred está em perigo.

O cavaleiro de ouro ruge de dor. Dor. É um sentimento novo. A fúria cresce em seu âmago, ele permite-se ser envolvido por ela, aceita-a como um alimento essencial para a sua vida e a emprega ao seu favor, ataca o inimigo com bestialidade, todavia é inútil: o Cavaleiro do Lago defende cada movimento ferino, então, desarma Mordred, derruba-o e mantém a lâmina ensanguentada de Arondight em seu pescoço, sua ponta toca a pele, rasga-a e sangue é derramado. Mordred sente medo, outro sentimento nunca antes experimentado.

— Qual o teu nome, cavaleiro?

O homem caído, em um tom quase insultante e provocador, responde com sinceridade.

Mordred.

A ira preenche o coração de Lancelot du Lac, entretanto tal sentimento é, para ele, um veneno terrível. O cavaleiro de ouro aproveita-se, recupera sua lâmina maligna, ergue-se em um salto, brande Arawn, corta a cabeça do inimigo com um golpe feroz e empurra seu corpo, lançando-o nas profundezas do lago. Sua vingança está feita e o sangue de Lancelot é sorvido pela sua espada demoníaca.

Porém, o demônio urra sua insatisfação, tem sede de sangue, de magia, de santidade a ser corrompida, sua voz sombria sussurra este desejo ao seu portador, guia-o para o interior da capela e, ali, Mordred rompe o cristal, enterrando Arawn no corpo falecido de Guinevere. O demônio sorri e a Rainha-Bruxa, em seu trono escuro, gargalha em vitória.


Uma sequência direta de Um conto arthuriano.

Nenhum comentário:

Postar um comentário