sexta-feira, 17 de agosto de 2012

Um conto arthuriano (iii): Um amor sacrificado


A Rainha-Bruxa delicia-se com o sabor inebriante da vitória. Finalmente! Finalmente ela detém de todas as peças para obter aquilo desejado pelo seu coração perverso: imortalidade. Aglavaine, seu filho deformado, executa sua ordem, ele evacua o castelo, prepara o Grande Salão para o ritual e até mesmo finge alegria diante do retorno do bastardo Mordred e de sua Lâmina Demoníaca. Ele odeia o irmão menor. Despreza-o. Inveja-o. Julga-o indigno de ser o campeão da mãe tão querida e adorada — o deformado anseia pelo amor materno.

E a rainha o ama com toda a sinceridade do seu coração, no entanto tal amor falha em cegá-la acerca das limitações do filho horrendo: ele só tem um propósito e este será cumprido logo, logo.

Mordred é abraçado e beijado com carinho pela mãe, ela demonstra genuína preocupação ao ver o seu ferimento, despe a armadura encantada, cuida da marca feita pelo odioso Lancelot, manda-o descansar por algumas horas e vai ao Grande Salão onde se põe a aguardá-lo pacientemente.

A Rainha-Bruxa senta-se em seu trono escuro diante do qual jaz uma arma santa forjada pela autêntica Dama do Lago, a espada que um dia pertenceu ao Único e Eterno Rei. Sua pureza repele o toque da rainha, contudo permite que a feiticeira maléfica sinta o seu poder incomensurável: é como estar acorrentada perante o Fruto da Vida, uma tentação sem fim.

Mordred e Aglavaine juntam-se à mãe para realizar o tão-esperado ritual, Arawn é entregue à rainha, lhe concedendo a oportunidade de absorver a magia de Merlin e o sangue abençoado do Cavaleiro do Lago. A Criança do Infortúnio, então, apanha uma adaga prateada, faz um corte superficial na palma da sua mão, transforma-a em um punho, aperta o ferimento, derramando uma gota na testa de sua mãe.

O poder do feiticeiro, a bênção do lago, o sangue de Pendragon... — a Rainha-Bruxa entoa, evocando e dominando as forças das trevas.

Ela chama Aglavaine, envolve-o em um abraço terno e honesto, beija-o em seu rosto e o presenteia com a realização do seu sonho mais utópico — em seu ouvido, a rainha sussurra “Eu te amo, meu querido filho” e, então, o apunhala impiedosamente com a lâmina maligna de Arawn, drenando lentamente a centelha da sua vida.

... E um amor sacrificado!

Uma coloração púrpura maligna apossa-se dos olhos da Rainha-Bruxa, ela larga a Lâmina Demoníaca e o filho moribundo, caminha ao encontro de Excalibur, toca-a, corrompe a sua santidade e crava-a em seu ventre. Do ferimento, brotam tentáculos púrpuros, estes se enrolam na lâmina santa e a puxam, grosseiramente, para o interior nefasto da feiticeira. Imediatamente, a ferida desaparece. Imortalidade.

Longe dali, em seu castelo decadente, Lorde Bedivere, o último cavaleiro remanescente da extinta Távola Redonda original, reúne-se com três jovens valorosos. Nem tudo está perdido.


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