
Numa certa ilha no meio dum certo oceano, vivia um certo homem com seu certo cachorro numa certa casinha localizada num não-tão-certo vilarejo. O certo homem era muito medroso e alegava que seu certo cachorro tinha poderes sobrenaturais.
— O cachorro tem poderes! — dizia o certo homem. — Ele latiu por dois dias na frente do quarto de minha mãe. No fim do segundo dia, a velha caiu dura no chão, morta! Outra semana, ele latiu durante dois dias para o vizinho e, no início do terceiro dia, o homem foi encontrado morto! Esse meu cachorro tem poderes!
Nenhum habitante daquele não-tão-certo vilarejo acreditava no certo homem e foi assim que o certo homem começou a ser evitado por todos. Certa noite, o certo homem acordou latidos e uivos ao pé da sua cama: era o certo cachorro. Amanheceu e o certo cachorro continuava a latir. Depois de dois dias, o certo homem já sabia qual seria o seu destino.
Na manhã do terceiro dia, o certo homem acordou cedo, arrumou-se, pegou sua faca mais afiada e, com um golpe rápido, degolou o seu certo cachorro. O certo homem, finalmente, havia matado o seu cachorro bruxo e agora viveria para sempre. Passaram-se, então, dois dias, e os latidos de um cachorro voltaram a soar pela casa. Logicamente, não poderia ser o certo cachorro, talvez fosse à solidão que, enfim, encontrara aquele certo homem. Só, sem um futuro e sem muitas coisas no seu passado, aquele certo homem pendurou uma corda no meio de sua sala e se enforcou.
Durante o enforcamento, os uivos e latidos aumentaram até chegar ao ponto de tudo se transformar em um ensurdecedor silêncio. E tudo isso aconteceu numa certa ilhota no meio dum certo oceano com um certo homem e com seu certo cachorro numa certa casinha localizada num não-tão-certo vilarejo.
Escrito por Guilherme Silva de Melo Arias com mínimas alterações por Felipe Cruz.
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