domingo, 6 de maio de 2012

Sir Errol de Velaryon e o dragão de Velathri


Velathri era uma comunidade pacata erguida no topo de um penhasco situado de frente para o mar em cujos rochedos repousavam os restos de algumas embarcações que ousaram navegar nos não-tão-raros momentos onde o Farol da Cidade via-se inutilizado por deveras razões, agora, irrelevantes. Um antro de gente humilde, conformada e temente ao Senhor, a comunidade consistia, essencialmente, de um amontoado de residências rústicas construídas a partir de quaisquer materiais disponíveis, olhá-las causaria asco em um indivíduo oriundo da cidade como, por exemplo, o Sr. Firenze que, apesar de residir em Velathri há quase uma década, ainda sentia-se nauseado pela absoluta falta de beleza presente naquelas construções.

“Isso é coisa de doido”, dizia “seu” Giovaldo, um pedreiro respeitado, “Uma casa não tem que ser bonita! Tem que ser resistente para aguentar o vento e não cair em cima da sua cabeça!”.

“Seu” Giovaldo, ao contrário da sua nêmese, era um homem respeitado e bem-querido pela comunidade, de modo que sua morte causou grande pesar aos habitantes do penhasco. Seu corpo foi encontrado por Elmerio, o primogênito do pedreiro, um pouco depois do alvorecer quando o rapaz retornava de uma visita noturna e, até então, secreta ao prostíbulo da cidade no pé do penhasco, topou com o cadáver do pai em meio a uma região, ululantemente, queimada. Elmerio, por sua vez, somente veio a reconhecer o seu patriarca devido ao ouro derretido presente na boca do defunto, o que, sem qualquer sombra de dúvida, correspondia ao famoso dente dourado do pedreiro.

O que, porém, teria ocasionado tamanha devastação? Reuniu-se o Conselho da Comunidade para discutir o acontecimento e, é claro, rezar pelo pobre falecido. De tão amado em vida, “seu” Giovaldo teve a sua missa conduzida pelo próprio pároco ao invés do aprendiz, o qual, normalmente, era quem executava aqueles serviços (e todos os outros serviços da singela paróquia, na verdade). Rezou-se muito, falou-se mais ainda e nenhuma solução para aquela dúvida foi encontrada até o instante fatídico no qual Santiago (um menino estrangeiro empregado como pastor de ovelhas) entrou correndo na paróquia para relatar aquilo recém-presenciado por ele.

“Eu vi com os seus próprios olhos!”, ele berrou, “Era um dragão! Um dragão enorme! Preto e de olhos vermelhos! Suas asas eram gigantes! Ele cuspiu fogo e tostou todo o rebanho do Sr. Firenze!”, choramingou ao proferir o final de tal frase, pois, ao encontrar o olhar de seu patrão, soube de imediato que ele, um pobre coitado, teria de compensar o prejuízo sofrido pelo homem da cidade.

Santiago, uma vez tendo contado sua história, perdeu a importância e foi, prontamente, retirado da paróquia. Os conselheiros, agora cientes do problema, começaram a discuti-lo, concluindo, por fim, que o melhor a fazer seria matar o dragão, entretanto como isto seria feito? O único cavaleiro presente na comunidade era o velho Sir Errol di Velaryon e ele, como era, universalmente, sabido, já não batia bem da cabeça há algum tempo.

“Ora, mas trata-se de um dragão!”, o Sr. Grubaldi exclamou, “Só um cavaleiro pode matar um dragão!”.

“Mas Sir Errol ainda é um cavaleiro?”, indagou o pároco, “Outro dia mesmo, o meu aprendiz o viu cavalgando em sua mula para atacar os moinhos do Sr. Bellargio, gritando ‘Movam suas poupanças, seus gigantes covardes’”, ele suprimiu um sorrisinho de escárnio, “Para mim, nosso não-tão-querido Sir Errol é só uma pobre alma enlouquecida coberta por uma armadura”.

“Talvez seja verdade, mas, querendo, ou não, Sir Errol é o nosso único cavaleiro”, o prefeito disse, “Ou quase-cavaleiro”, acrescentou. E, assim, o prefeito ordenou que um mensageiro apressasse-se em comunicar o velho cavaleiro da Irmandade de Blackfyre acerca da sua missão.

O mensageiro encontrou Sir Errol ainda de pijama, com a barba suja de sopa, cutucando o nariz e tentando, há uma hora inteira, ler uma frase contida em um poema sobre o nobre paladino Agilulfo, lançou o livreto para o alto ao receber a notícia, estava muito empolgado, o mensageiro notou, em saber que os seus serviços eram, novamente, necessários. De tão empolgado, nomeou o mensageiro, Robin, como seu escudeiro, mandou-o apanhar a sua armadura encardida, preparar a sua mula cega, afiar a sua espada de aço galkânico e procurar o seu escudo, uma relíquia antiga passada de geração em geração pela Dinastia di Velaryon onde havia o brasão de tal dinastia — um tigre pisando em flores — estampado.

Robin, obviamente, não tinha a menor ideia de sequer como começar a executar as ordens do seu senhor, portanto, demorando quase uma semana inteira para descobrir onde Sir Errol deixara a sua armadura e mais dois dias para, finalmente, obter sucesso em lavar a mancha de comida presente no peitoral desta. Ao todo, passou-se um mês até o escudeiro preparar Sir Errol para enfrentar a fera que, naquele intervalo de tempo, produzira um círculo de terra queimada ao redor da, agora, não-mais-tão-pacata Velathri.

O velho cavaleiro montou em Anope, a sua mula cega, e rumou para além da comunidade, teve a sua marcha observada pelos transeuntes da Rua Principal que, a fim de exibir a sua confiança no último di Velaryon, atiraram frutas apodrecidas nele e em seu escudeiro e o Sr. Libenzo, em particular, gritou que ele ainda precisaria pagar a conta da padaria mesmo na, praticamente, impossível possibilidade de conseguir matar o maldito dragão. Sir Errol — cuja mente já não era mais a mesma e que também estava um pouco surdo — confundiu o escárnio da multidão como demonstrações de afeto e admiração: ele era o Salvador de Velathri e o povo estava ciente disso. Robin, por outro lado, entendeu tudinho tintim por tintim e não ficou nenhum pouco animado com isso.

Seu desânimo, contudo, não impediu o escudeiro de auxiliar o seu mestre em sua incumbência, ajudou Anope a caminhar pelo terreno acidentado e sugeriu que eles deveriam percorrer o círculo de cinzas projetado pelo dragão na esperança de, ao longo do trajeto, encontrar o toca da vil criatura, o que, de fato, aconteceu logo depois de a mula ter se assustado com um barulho provocado por Robin quando este pisou em um galo seco, fazendo-o quebrar e produzindo um som de estalo. Anope saiu correndo em disparada sem a menor ideia de onde estava indo, talvez por isso somente vindo a parar de movimentar-se no instante no qual acertou a sua face na parede rochosa de uma caverna cuja escuridão interior desapareceu, momentaneamente, quando uma lavareda de chamas projetou-se para fora dali.

Sir Errol, entusiasmadíssimo, resolveu nem esperar pelo seu escudeiro, desceu de Anope, se esquecendo de prendê-la em qualquer lugar, empunhou sua espada, Eterfyre, e seu escudo, soltou um urro de felicidade e avançou para as profundezas da caverna, quase sendo reduzido a um punhado de cinzas mais de uma vez pelas labaredas cuspidas pelo dragão residente no final da estrutura rochosa: era, assim como descrito pelo pastor, uma criatura monstruosa, entretanto isto não foi suficiente para fazer com que Sir Errol ficasse intimidado, ele abaixou a viseira do seu elmo, gritou o moto da sua Irmandade e brandiu o aço contra a pele do dragão — que se desatou a rir quando a lâmina de Eterfyre partiu-se em milhões de pedaços ao tocar a sua pele.

“Prole do diabo, como ousa estilhaçar a minha espada!”, gritou Sir Errol, enfurecido, “Oh, mas você se verá comigo”, e começou a golpear as escamas do réptil com o seu escudo, uma peça que, em virtude das runas mágicas escritas em seu corpo, se mostrou, consideravelmente, mais resistente que a espada responsável pela derrota de Hugo, o Feio há tantos anos.

O dragão continuou a divertir-se à custa do velho cavaleiro, encarando os seus golpes furiosos como uma espécie agradável de massagem, algo perfeito para aliviar a dor que vinha sentindo em seu corpo escamoso nos últimos tempos. Seu corpo doía, os olhos lacrimejavam, seu sangue frio fervia, às vezes, sentia-se nauseado e sempre se via espirrando e, agora, o dragão percebeu, era a hora de outro espirro — virou a cabeça para o lado oposto ao de Sir Errol (não queria incendiar o pobre homem) e, com um som de “Atchim!” explosivo, lançou um jorro de chamas incandescentes.

“Você está doente?”, Robin, recém-chegado ao final da caverna, quis saber.

O dragão assentiu com um balançar de cabeça.

Robin, um menino muito doce e prestativo, procurou em sua mochila por um remédio caseiro feito por sua mãe, encontrou o pote contendo o líquido verde-musgo de cheiro ruim e esticou o seu braço em direção ao dragão, entregando o recipiente a ele, “É ruim, mas fará você ficar melhor”. O dragão, com todo o cuidado do mundo, apanhou o pote e o engoliu inteiro, fez uma careta ao sentir o seu gosto ruim, todavia logo começou a sentir-se melhorar dos males da gripe.

“Está melhor?”, o escudeiro perguntou, obtendo o equivalente dracônico da palavra “Sim” da parte do réptil colossal, “Que bom!”, ele sorriu um sorriso inocente, “Ei, Sr. Dragão, será se o senhor poderia, por favor, ir para outro lugar? As pessoas da minha comunidade estão ficando irritadas com o senhor queimando tudo por aí. Sim?”.

O dragão, comovido pela inocência e pela bondade do menino, respondeu-lhe com uma reverência munida de respeito, bateu suas asas, levantando voo e desapareceu pelo grande buraco no topo de sua caverna, nunca mais tornando a aparecer no perímetro de Velathri.

E agora, o que fazer? A dúvida surgiu na mente de Sir Errol. Ele, que acreditava ter espantado o dragão com a fúria e força dos seus golpes, não queria retornar para a sua vidinha pacata na comunidade, ter enfrentado aquela criatura reviveu a sua sede de aventura, a necessidade de viajar pelo mundo, de salvar donzelas em perigos, de proteger a fé do Culto dos Nove, de enfiar a sua espada em gigantes, dragões e todos os outros vilões.

“O que acha, Ernesto, quer ver o mundo?”.

“Mas é claro que sim!”, o menino respondeu, “E o meu nome é Robin, senhor”.

“Muito bem, então, Harry, vá atrás de Apena, prepara-a para mim e, em seguida, nós começaremos a nossa viagem pelo mundo!”.

Robin demorou dois meses para encontrar Apena vagando pelos arredores do penhasco, precisou de várias maçãs e muita paciência para domesticá-la outra vez, levou-a de volta a Sir Errol e, então, o velho cavaleiro e o seu jovem escudeiro, finalmente, iniciaram a sua viagem pelo mundo.

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