terça-feira, 15 de maio de 2012

O desejo do jovem rei


Era uma vez um jovem rei. Ele era muito, muitíssimo rico, possuía uma esposa para cada dia do ano, os seus súditos existiam, unicamente, para concretizar os desejos da sua vontade e recebera o dom da beleza dos lábios da própria Afrodite, a qual, inclusive, teria o pedido em casamento caso isto não fosse, terminantemente, proibido pelos costumes do Olimpo. O jovem rei tinha tudo e, no entanto, era infeliz.

Veio, então, um mês de setembro e a comemoração do seu aniversário, dentre os muitos artistas que se apresentavam em seu salão, surgiu um que dizia ser um hipnoterapista. O homem, ao notar a melancolia no semblante do jovem rei, ofereceu-se para hipnotizá-lo e, assim, fazê-lo reviver os seus momentos de felicidade, pois nenhuma criatura nascida de Zurvan poderia viver sem nunca ter sorrido. Assim, o jovem rei submeteu-se ao experimento e se recordou do seu único momento de felicidade: era uma criança de cinco, talvez seis anos e seu querido tio Malik, antes de partir para liderar os exércitos do reino em uma expedição para o fim do mundo e dali nunca retornar, entregou a ele um doce, uma pequenina bolinha azul-bebê que o então príncipe infante engoliu e sentiu a bênção dos deuses dançando em seu paladar.

Fatigado pela amargura e seduzido pela ideia de um ínfimo instante de felicidade, o jovem rei ordenou que os seus súditos se espalhassem pelos quatro cantos do mundo e apenas retornassem quando obtivessem o misterioso doce em suas mãos, ele berrou a ordem sem descrever o item, ou proferir outras pistas, sentou-se em seu trono de ouro e o tempo passou, muitos dos seus súditos morreram ao tentar encontrar a enigmática bolinha azul-bebê, toneladas e toneladas de ouro foram gastas durante a jornada e, pouco a pouco, o rei viu-se abandonado, velho, fraco, pobre e, dolorosamente, sozinho. Sua infelicidade nunca fora maior.

Seu último súdito fiel, enfim, retornou e, em suas mãos, trazia uma embalagem contendo o doce. O velho rei agradeceu-o com toda a sinceridade do seu coração, apanhou o item com as suas mãos trêmulas e o atirou na boca, mastigando-o tão vorazmente quanto uma fera selvagem há séculos faminta, tornou a experimentar aquela sensação tão intoxicante de felicidade, sorriu e, então, padeceu, tendo os seus olhos fechados pelo último súdito.

Ele retirou-se do abrigo de seu velho mestre, saindo em uma rua de mercado, logo ao seu lado havia uma venda e nela o vendedor vendia um sem-número de bolinhas azul-bebês, doces simples sem nada especial e de natureza distinta daquele dado ao rei falecido pelo seu também defunto tio. O súdito, meramente, queria conceder ao seu velho mestre um momento sincero de felicidade ainda que calcado na mentira. Oh! Que triste o destino daqueles que se prendem as alegrias do passado e ignoram aquilo que está disposto perante os seus olhos!

Um comentário:

  1. "Oh! Que triste o destino daqueles que se prendem às alegrias do passado e ignoram aquilo que está disposto perante os seus olhos!" - GENIAL.

    ResponderExcluir