Há um mural
pregado na porta esquerda do meu guarda-roupa com massinha de modelar, tal
porta é fechada por uma espada de plástico que, certa vez, comprei no Comércio para
participar de um curta-metragem de baixo orçamento na minha antiga universidade,
o pequeno filme foi um fracasso, entretanto a espada ficou para sempre.
Vê-la ali,
trancando o meu guarda-roupa, foi algo que capturou a atenção da minha sobrinha
de, então, três anos; ela, com toda sua ingenuidade infantil, perguntou-me o
que havia do outro lado da porta e eu, a fim de estimular a sua imaginação,
falei ter capturado um monstro, o colocado dentro dali e usado a espada para
impedi-lo de sair e aterrorizar as crianças do mundo inteiro. Ela me achou um
herói, e eu fiquei feliz com isso, eu, em toda minha vaidade e em plena
consciência dos meus atos, a amedrontei para com isso me transformar no objeto
de sua adoração. Agora, envergonho-me ao olhar para trás.
Minha
sobrinha não permaneceu com a mesma idade pela eternidade, ela cresceu, hoje em
dia tem seis anos e uma mentalidade, ululantemente, superior à das crianças de
seis anos da minha época, por isso, não foi nenhuma surpresa para mim quando, um
dia, ela veio até para dizer estar ciente de que não havia nenhum monstro
dentro do guarda-roupa, inclusive retirou, corajosamente, a espada do puxador
para provar sua teoria, eu a aplaudi de pé, daí perguntei se ela, de fato,
queria saber o que jaz naquele interior escuro, úmido e empoeirado. Ela disse
que sim.
Eu apontei
para o mural, as fotos da minha namorada, dos meus amigos e de outras pessoas
de absoluta importância para mim (inclusive o pai dela), falei que aqueles eram
alguns dos melhores momentos da minha vida, porém não apenas isto, as fotos
eram um mapa para facilitar as minhas viagens no tempo, pois o interior do
armário era, justamente, isso: uma máquina do tempo. Perguntei, então, se ela
queria ver o passado. Para o meu orgulho, ela tornou a proferir um sonoro e
entusiasmado “Sim!”.
Então, eu
abri a porta e as memórias fluíram para o presente, dançando perante os meus
olhos, me senti triste, enfurecido, alegre, empolgado, enciumado, com inveja,
ansioso, as lembranças, feixes de luz, atravessaram o meu corpo, momentos de
amor, de perda, de nascimento, de morte, eu escapei de uma espiral de autodestruição,
eu vi a morte dos meus ídolos, eu vi o nascimento dos meus sobrinhos, a morte
de entes queridos, eu andei em lugares onde as leis eram concebidas pela
vontade de tiranos enlouquecidos, eu assisti amizades enregelarem-se, amores
queimarem, eu vi coisas que, talvez, ninguém fosse capaz de acreditar, eu perdi
coisas que nunca percebi possuir até este instante derradeiro, eu vi os meus
segredos, um conhecimento que jamais deverá ser partilhado, eu olhei para trás e
vi todas as pessoas que, um dia, já foram importantes para mim.
— Isso não é
uma máquina do tempo — minha sobrinha, decepcionada, disse. — Isso é um
guarda-roupa sujo.
Eu, envolvido
pela nostalgia, olhei para ela.
— Ora, bem,
não é agora — fitei o mural. — Mas, um dia, será para você também — e fechei a
porta.
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