segunda-feira, 22 de julho de 2013

Uma máquina do tempo


Há um mural pregado na porta esquerda do meu guarda-roupa com massinha de modelar, tal porta é fechada por uma espada de plástico que, certa vez, comprei no Comércio para participar de um curta-metragem de baixo orçamento na minha antiga universidade, o pequeno filme foi um fracasso, entretanto a espada ficou para sempre.

Vê-la ali, trancando o meu guarda-roupa, foi algo que capturou a atenção da minha sobrinha de, então, três anos; ela, com toda sua ingenuidade infantil, perguntou-me o que havia do outro lado da porta e eu, a fim de estimular a sua imaginação, falei ter capturado um monstro, o colocado dentro dali e usado a espada para impedi-lo de sair e aterrorizar as crianças do mundo inteiro. Ela me achou um herói, e eu fiquei feliz com isso, eu, em toda minha vaidade e em plena consciência dos meus atos, a amedrontei para com isso me transformar no objeto de sua adoração. Agora, envergonho-me ao olhar para trás.

Minha sobrinha não permaneceu com a mesma idade pela eternidade, ela cresceu, hoje em dia tem seis anos e uma mentalidade, ululantemente, superior à das crianças de seis anos da minha época, por isso, não foi nenhuma surpresa para mim quando, um dia, ela veio até para dizer estar ciente de que não havia nenhum monstro dentro do guarda-roupa, inclusive retirou, corajosamente, a espada do puxador para provar sua teoria, eu a aplaudi de pé, daí perguntei se ela, de fato, queria saber o que jaz naquele interior escuro, úmido e empoeirado. Ela disse que sim.

Eu apontei para o mural, as fotos da minha namorada, dos meus amigos e de outras pessoas de absoluta importância para mim (inclusive o pai dela), falei que aqueles eram alguns dos melhores momentos da minha vida, porém não apenas isto, as fotos eram um mapa para facilitar as minhas viagens no tempo, pois o interior do armário era, justamente, isso: uma máquina do tempo. Perguntei, então, se ela queria ver o passado. Para o meu orgulho, ela tornou a proferir um sonoro e entusiasmado “Sim!”.

Então, eu abri a porta e as memórias fluíram para o presente, dançando perante os meus olhos, me senti triste, enfurecido, alegre, empolgado, enciumado, com inveja, ansioso, as lembranças, feixes de luz, atravessaram o meu corpo, momentos de amor, de perda, de nascimento, de morte, eu escapei de uma espiral de autodestruição, eu vi a morte dos meus ídolos, eu vi o nascimento dos meus sobrinhos, a morte de entes queridos, eu andei em lugares onde as leis eram concebidas pela vontade de tiranos enlouquecidos, eu assisti amizades enregelarem-se, amores queimarem, eu vi coisas que, talvez, ninguém fosse capaz de acreditar, eu perdi coisas que nunca percebi possuir até este instante derradeiro, eu vi os meus segredos, um conhecimento que jamais deverá ser partilhado, eu olhei para trás e vi todas as pessoas que, um dia, já foram importantes para mim.

— Isso não é uma máquina do tempo — minha sobrinha, decepcionada, disse. — Isso é um guarda-roupa sujo.

Eu, envolvido pela nostalgia, olhei para ela.


— Ora, bem, não é agora — fitei o mural. — Mas, um dia, será para você também — e fechei a porta.

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