Eu deveria ter 10 anos, talvez
menos. Um amigo do meu pai nos convidou para visitar o seu sítio fora da
cidade, era um sábado quente de julho, eu não queria ir, preferia ficar em casa
e assistir à reprise de Power Rangers:
Lost Galaxy (era o episódio no qual a Trakeena saia do casulo), contudo
nunca me foi dada uma escolha, entrei no carro com uma careta, cruzei os braços
e permaneci deste jeito até o fim da viagem quando minha mãe me coagiu a botar
um sorriso no rosto e a ser educado com a família do amigo do papai.
Logo, notei que havia outras
crianças ali; para alguns, isto seria um sinal de salvação, “Ah, então, não
será um sábado chato com adultos!”, para mim, no entanto, era o contrário: a
piscina era dominada pela panelinha das meninas — e eu, na minha tenra idade,
ainda não havia superado a barreira da timidez — ao passo que os meninos
entretinham-se no campo de futebol. Se, novamente, fosse me concedida a chance
de escolher o meu futuro, teria ficado assistindo televisão, afinal, é melhor
prestar atenção nas baboseiras do Faustão que sofrer com risadinhas derivadas
ou da minha timidez, ou da minha inaptidão como atleta.
Mamãe, como de costume, empurrou-me
para ficar com os outros meninos, estes convidaram-me para jogar com aqueles,
eu sabia que deveria recusar o convite, mas, não sei por quê, o aceitei, logo,
minha falta de talento — uma consequência, em parte, da minha aguda miopia —
ficou evidente, daí descobri-me “promovido” a outra posição, a de gandula. Eu
não queria ser o gandula, porém era melhor que retornar à casa e ter de
aguentar os adultos me perguntando por que não estava mais jogando.
Um menino, não lembro quem, chutou
a bola com força demais para fora do campo, de modo que esta penetrou no
bosque, levantei-me, prontamente, de meu lugar na grama e fui atrás do objeto
perdido, segui por uma trilha, sempre olhando ao redor, não encontrei nada,
apenas uma lagoa onde residia um peixe solitário, acho que era um bagre, a
criatura me encarou, eu imitei o gesto, então, soltou duas bolhas de ar, por
algum motivo, imaginei que aquilo fosse um insulto, por isso, retirei-me dali.
Ao virar-me para o lado,
encontrei a bola, ela estava enterrada em um monte de folhas secas, não sei ao
certo como pôde ter parado lá, tão longe do campo de futebol, tampouco
perguntei-me sobre isso na época, abandonei a segurança da trilha para
apanhá-la, desci o terreno íngreme com cuidado, havia deixado as minhas sandálias
na casa e não queria me machucar, percebi que o monte de folhas jazia sobre uma
poça de lama enorme, segurei-me no galho de uma árvore com uma mão, estendi uma
perna com a intenção de puxar a bola para perto de mim, obtive certo sucesso em
minha empreitada, no entanto o galho quebrou-se em minha mão, eu caí na grama
suja e soltei longo suspirou — já podia até escutar minha mãe reclamando por eu
ter me sujado.
Sob o raciocínio de que não
haveria como evitar levar uma bronca, entrei na poça de lama para pegar a bola,
fiquei tingido de marrom até a cintura e também nas mãos, girei nos
calcanhares, pretendia ir embora, porém algo no canto do meu olhar capturou a
minha atenção, voltei-me para encarar “aquilo”, então, descobri-me na presença
de um troll.
Era uma criatura grande, maior
que um adulto, sua nudez era coberta por uma grossa película de lama e folhas
secas, tinha um nariz enorme parecido com uma batata, seus cabelos pretos
encaracolados iam até o chão, suas orelhas lembravam-me ao Dumbo e o sorriso
bobo em seu rosto teria o transformado em uma criatura inofensiva, talvez
benigna, caso seus dentes pontiagudos não estivessem manchados de sangue; era,
afinal, um troll.
— Uhm... Olá — eu, com voz
tímida e fraca, disse.
O troll continuou em silêncio, encarava-me com um par miúdo de olhos,
saliva escorria pela sua boca e o sorriso parecia ter ficado maior. Na época,
não pensei isso, mas, ao lembrar-me do episódio, noto que o troll fitava-me com um olhar predatório
também munido de teor sexual, a criatura não ansiava apenas dilacerar a minha
carne.
Eu não sabia como reagir, nunca
havia me deparado antes com um troll,
na realidade, nem estava ciente da sua existência, acreditava que era uma
figura fantasiosa como uma fada, ou um elfo, também jamais tinha mostrado
interesse em histórias de troll, se
estivesse diante de, por exemplo, um anão, eu já teria tirado o crucifixo prateado
do meu pescoço e o atirado para longe, o anão correria atrás do metal e eu
fugiria para a segurança do campo de futebol, mas um troll? Não. Aquela era uma situação, completamente, inusitada.
Todavia, um fato era certo: eu
não queria continuar encarando aquela face grotesca. Sem dar as costas para a
criatura, comecei a recuar, pisei em um galho seco, perdi o equilíbrio, caí de
bunda no chão, pisquei os olhos por um instante, então, ao abri-los, deparei-me
com a face do troll diante de mim,
ele jazia parado à minha frente, eu podia sentir o seu hálito podre, alguns
centímetros insignificantes separavam-me dos seus dentes e o sorriso
perturbador permanecia estampado em seu rosto.
Fiquei assustado, engasguei-me
com a minha própria saliva, tossi com força, porém não tornei a fechar os olhos,
arrastei-me para cima, fiquei de pé, continuei a recuar, tinha os olhos fixos
no troll, agora mais distante,
percebi — pelo canto do olho — ter retornado à trilha, senti o sol queimando o
meu cocuruto e, repentinamente, vi-me envolvido por água. O bagre encarava-me
com uma cara feia.
Apressei-me em retornar à
superfície, puxei-me para fora da lagoa e lancei um olhar na direção do troll que, agora, jazia no limiar da
escuridão, o sorriso perverso abandonara sua face monstruosa, ao invés disso,
havia dado lugar uma máscara de fúria e de frustração. Não sei o que deu em mim
naquele momento, contudo fechei os olhos, contei de um até dez, tornei a
abri-los e, para a minha felicidade, o troll
permanecia imóvel, foi, então, que eu compreendi: ele não podia aventurar-se,
diretamente, abaixo dos raios-de-sol.
Eu mostrei minha língua para o troll, dei meia-volta e fui embora.

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