Era um sótão escuro, empoeirado
e úmido, um antro de animais repugnantes e de pensamentos sombrios. Uma lâmpada
de luz pálida pendia do teto, debaixo desta, havia um homem sentado em uma
cadeira de madeira, ele estava com a cabeça abaixada, escondida entre as mãos,
sentia-se confuso e sem saber o que fazer, ou o que não fazer.
Em seu ouvido, então, o Orgulho
ferido sussurrou: “Eu não acredito! Eu não acredito que você ficará aí sentado,
fracassado, uma pobre criatura humilhada! O que aconteceu com você? Quem é
você?”.
A Fúria veio em seguida,
aproveitando-se da ferida do Orgulho e disse: “Levante-se! Saia daqui! Vá atrás
dele! Se entregue ao seu instinto! Morda, machuque, fira! Mostre a besta
sanguinária adormecida nas profundezas enregelantes do seu coração!”.
A Paixão, eternamente sedenta
por emoções fortes, quis enaltecer a chama da Fúria, proferindo: “Você pode
sentir? Você pode sentir o fogo queimando ululantemente? Chamejando debaixo da
sua pele? Incandescendo a sua alma? Você pode sentir? Você pode sentir a chama
descontrolada de um coração humilhado?”.
E as memórias fluíram pela sua
mente, aquela voz austera ecoou da escuridão, despertando o sentimento até
então adormecido do Medo, que proclamou: “Não dê atenção a eles! Fique onde
está! Aqui, sozinho, não há ninguém para machucá-lo! Fique! Não procure o
caminho da Dor!”.
Ter o seu nome mencionado atraiu
a Dor para aquele teatro de emoções, ela trouxe consigo outra lembrança, a da
dor sentida ao ter o orgulho ferido, a dor do punho chocando com o seu rosto,
da sentir a incapacidade de proteger a pessoa amada, e sibilou estas palavras: “Eu
sou a Dor, eu sou real, eu não sou um sonho. Renda-se agora! Não há
escapatória! Você nunca vencerá! Abaixe a sua cabeça! Aceite o seu destino!”.
E a Dor o abraçou.
E o Medo tampou os seus olhos.
E a Paixão apertou o seu coração.
E a Fúria mordeu o seu pescoço.
E o Orgulho cuspiu em sua alma.
E, então, ela apareceu. Um rosto pálido e sereno dotado
de um olhar materno e redentor, ela, a mais poderosa das emoções, atenuou a
Dor, espantou o Medo, silenciou a Paixão, apagou a Fúria e, por fim, ordenou o
Orgulho, o inconsequente Orgulho ferido, que seguisse em frente, porque não há
sentido em acorrentar-se ao passado sombrio quando há a luz da esperança no
futuro.
E o Amor proferiu: “Feche os seus olhos, escute a melodia
do seu coração, encante-se com o seu suave pulsar, silencie o pranto e alegre-se:
você não está sozinho. Eu sempre estarei ao seu lado, não há porque temer estes
sentimentos que o assombram, eu estou aqui para apanhá-lo se você cair. Você
não está sozinho. Eu estou dançando com você”.
Ele ergueu-se da escuridão, aceitou a mão do Amor e com a
Bela Dama dançou a majestosa Dança da Alegria.

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