sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

Um conto de sentimentos



                Era um sótão escuro, empoeirado e úmido, um antro de animais repugnantes e de pensamentos sombrios. Uma lâmpada de luz pálida pendia do teto, debaixo desta, havia um homem sentado em uma cadeira de madeira, ele estava com a cabeça abaixada, escondida entre as mãos, sentia-se confuso e sem saber o que fazer, ou o que não fazer.

                Em seu ouvido, então, o Orgulho ferido sussurrou: “Eu não acredito! Eu não acredito que você ficará aí sentado, fracassado, uma pobre criatura humilhada! O que aconteceu com você? Quem é você?”.

                A Fúria veio em seguida, aproveitando-se da ferida do Orgulho e disse: “Levante-se! Saia daqui! Vá atrás dele! Se entregue ao seu instinto! Morda, machuque, fira! Mostre a besta sanguinária adormecida nas profundezas enregelantes do seu coração!”.
                A Paixão, eternamente sedenta por emoções fortes, quis enaltecer a chama da Fúria, proferindo: “Você pode sentir? Você pode sentir o fogo queimando ululantemente? Chamejando debaixo da sua pele? Incandescendo a sua alma? Você pode sentir? Você pode sentir a chama descontrolada de um coração humilhado?”.

                E as memórias fluíram pela sua mente, aquela voz austera ecoou da escuridão, despertando o sentimento até então adormecido do Medo, que proclamou: “Não dê atenção a eles! Fique onde está! Aqui, sozinho, não há ninguém para machucá-lo! Fique! Não procure o caminho da Dor!”.

                Ter o seu nome mencionado atraiu a Dor para aquele teatro de emoções, ela trouxe consigo outra lembrança, a da dor sentida ao ter o orgulho ferido, a dor do punho chocando com o seu rosto, da sentir a incapacidade de proteger a pessoa amada, e sibilou estas palavras: “Eu sou a Dor, eu sou real, eu não sou um sonho. Renda-se agora! Não há escapatória! Você nunca vencerá! Abaixe a sua cabeça! Aceite o seu destino!”.

                E a Dor o abraçou.

E o Medo tampou os seus olhos.

E a Paixão apertou o seu coração.

E a Fúria mordeu o seu pescoço.

E o Orgulho cuspiu em sua alma.

E, então, ela apareceu. Um rosto pálido e sereno dotado de um olhar materno e redentor, ela, a mais poderosa das emoções, atenuou a Dor, espantou o Medo, silenciou a Paixão, apagou a Fúria e, por fim, ordenou o Orgulho, o inconsequente Orgulho ferido, que seguisse em frente, porque não há sentido em acorrentar-se ao passado sombrio quando há a luz da esperança no futuro.

E o Amor proferiu: “Feche os seus olhos, escute a melodia do seu coração, encante-se com o seu suave pulsar, silencie o pranto e alegre-se: você não está sozinho. Eu sempre estarei ao seu lado, não há porque temer estes sentimentos que o assombram, eu estou aqui para apanhá-lo se você cair. Você não está sozinho. Eu estou dançando com você”.

Ele ergueu-se da escuridão, aceitou a mão do Amor e com a Bela Dama dançou a majestosa Dança da Alegria.

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