Eu
deveria ter saído mais cedo da universidade naquele dia, um dos professores
havia faltado e, assim, nós, os alunos, tínhamos sido liberados, arrumamos os
nossos pertences com uma velocidade digna de Fórmula Um, levantamo-nos das
cadeiras e, ao alcançarmos a saída do prédio, deparamo-nos com uma brincadeira
de mau gosto da parte de São Pedro: um dilúvio desabou dos céus e nós, pobres
coitados, não tivemos outra escolha senão retornar para as dependências da
universidade.
Declinei
educadamente, e com um esforço sobrenatural, o convite feito por um dos meus
amigos para participar de um campeonato de ping-pong, rumando, ao invés disso,
para a biblioteca com o intuito de me adiantar nos trabalhos individuais
daquele semestre, peguei uma tonelada de livros, sentei-me em uma mais ou menos
isolada, abri o caderno, empunhei uma caneta esferográfica preta comprada por
mim no início do ano, respirei fundo, tentando reunir coragem e então comecei a
estudar, perdendo, eventualmente, a noção do tempo, de modo que somente dei por
mim quatro horas mais tarde. E nada de o aguaceiro ter terminado.
Distanciei
a cadeira da mesa com um empurrãozinho, estiquei os braços e as pernas, estalei
o pescoço, soltei um bocejo e tornei a olhar, agora completamente desanimado,
para o emaranhado de papéis que havia brotado sobre aquela superfície de
madeira velha, “Eu deveria estar jogando ping-pong”, pensei. Transformei um
papel de rascunho em uma bolinha, esquadrinhei o andar, que era o segundo, por
um cesto de lixo, encontrei-o não muito distante de mim, mirei na sua abertura
e então lancei a bolinha de papel — errei
por vários centímetros. Tudo bem, isso acontece.
—
Por um acaso você não irá juntá-la? — uma voz rouca vindo detrás de mim
perguntou. Eu, ao escutá-la, levei um susto, senti um frio subindo pela minha
espinha e só não dei um pulo da cadeira por que... Na realidade, nem eu sei por
quê. Olhei para trás e descobri um zelador parado ali, apoiava-se no seu
esfregão e parecia ter algo em torno de quarenta, quarenta e um anos. — Ei,
escutou o que eu disse?
Eu
fiz que sim com a cabeça, levantei-me da cadeira, apanhei a bolinha de papel e
a botei dentro do cesto de lixo, voltei ao meu lugar, o zelador me olhou como
quem diz “Obrigado”, molhou o esfregão no balde de limpeza, então se ocupando de
limpar o chão da biblioteca enquanto eu, mais desanimado do que nunca,
limitei-me em focar o meu olhar em um ponto material qualquer, perdido em
pensamentos triviais.
—
Sabe, toda vez que cai uma chuva dessas, eu me lembro de quando tinha a sua
idade, talvez fosse um pouquinho mais velho, e era um pescador — o zelador, de
repente, falou, sua voz interrompeu o meu transe, retornando-me para o mundo da
matéria. — Bons tempos, bons tempos. — havia um quê de nostalgia em suas
palavras.
Endireitei-me
na cadeira e me virei em direção a ele.
—
Era uma vida muito diferente, a de pescador?
—
Oh, se era! — ele, com uma risadinha, respondeu. — E ponha diferente nisso.
Imaginei-o,
por um instante, vinte anos mais jovem, parado sobre o convés, uma mão
segurando o mastro da embarcação e o outro, uma espada, então eu pisquei para
me livrar de tal imagem, a qual era totalmente incorreta: o homem fora um
pescador, não um pirata. Sinto que eu tenha assistido a filmes demais.
—
Pelo visto, o senhor gostava bastante.
—
Sim, sim, sim — disse. — Eu me sentia um verdadeiro mestre-dos-rios! — havia um
brilho em seus olhos, certamente estava revivendo os episódios daquele seu
passado distante. — Ah, rapaz, você não tem ideia de quantos mistérios há nos
rios daqui! — tornou a molhar o instrumento de limpeza. — Mistérios que surgem
diante dos nossos olhos em noites tempestuosas, de lua-cheia, de 29 de
fevereiro, de Ano-Novo, e por aí vai...
“Histórias
de pescador”, eu pensei, “Mas que clichê!”.
—
O senhor encontrou algum desses, ah, mistérios?
—
Muitas vezes — enrolou a manga do uniforme verde-escura, exibindo uma cicatriz
sinuosa na pele morena. — Vê? Isso aqui é uma lembrança do meu encontro com o
Peixe Palhaço. Sabe o que é o Peixe Palhaço?
—
Não é o peixe daquele filme, Procurando
Nemo?
—
Com mil demônios, não! O Peixe Palhaço é um peixe maligno que nasceu do ódio e
do sofrimento das vítimas da tragédia do Brigue do Palhaço — contou a mim. — Ele
sai de sua gruta uma vez por ano na noite do dia 19 de outubro para se
alimentar, ataca barcos, come pescadores e quaisquer outros azarados que estejam
dentro do rio nessa noite — o zelador estufou o peito, orgulhoso. — Eu e o meu
pessoal fomos uns dos poucos a sobreviverem ao ataque do Peixe Palhaço!
—
Fascinante — apesar do tom intensamente
irônico da voz, o zelador pareceu não ter notado o meu desinteresse pela sua
fábula.
—
E isso aqui — botou-se de costas para mim e apontou um dedo indicador cuja unha
estava quase que completamente roída para outra cicatriz, uma situada na nuca e
a qual possuía, estranhamente, o formato de lábios. — Ah, isso aqui tem uma boa
história — ficou de frente para mim. — Quer ouvi-la? É uma boa história —
tornou a dizer.
Olhei
para os papéis em cima da mesa, depois para a chuva impiedosa além da janela,
encolhi os ombros, desenhei um sorriso munido de falso interesse e disse que
sim, “Eu adoraria escutá-la!”, o zelador apoiou o esfregão em uma coluna,
sentou-se na cadeira posicionada à minha frente, juntou as pontas dos dedos e
daí me contou a sua história de pescador:
Éramos quatro: eu, Ismael, Tomé e
Escobar, a gente dividia um mesmo barco e os lucros de cada dia e, ah, aquele
tinha sido um dia de lucro! Sentamo-nos em uma das barraquinhas de comida do
porto para almoçar e assistir ao jornal, aí, do nada, uma velha negrona veio
falar com a gente, disse que queria alugar o barco, e a gente, para navegar
dali a duas noites, no Dia de Todos os Santos, pelo rio. Bem, dinheiro nunca é demais; então nós aceitamos na hora,
“Fechado, minha senhora”, eu disse a ela.
Veio à noite do Dia de Todos os
Santos, a gente se encontrou no porto, Ismael e Escobar, que eram os mais
grandalhões da gente, ajudaram a carregar as tralhas da velha dentro do barco,
puseram aquilo dentro da cabine, ela deu cinco reais para cada um como sinal de
agradecimento e prometeu mais cinco reais para quem a ajudasse com outra
tarefa. Ismael e Escobar bem que queria “abocanhar” esse dinheiro, mas não,
eles já tinham ganhado a parte deles, era minha vez e a do Tomé de faturar um
extra, assim entramos na cabine e seguimos as instruções da velha enquanto os
outros dois iam pondo o barco para navegar.
Ela nos mandou desenhar uma listra
vermelha que dava a volta nas paredes da cabine, depois traçar um círculo bem
no centro do chão, daí pôr umas velas ali, aqui e acolá, disse também para que
a gente pendurasse uns papeizinhos com uns símbolos estranhos no teto — colamos
as cordas com fitas adesivas —, aí agradeceu, deu o nosso dinheiro e falou que
de jeito nenhum deveríamos entrar na cabine antes do amanhecer. Ah, é! Eu me
esqueci de mencionar isso: ela pagou cinquenta reais para cada um para que
ficássemos navegando à deriva no rio das oito horas até o raiar do sol.
A gente se revezou no leme, primeiro
eu, depois Tomé, então Ismael e, por fim, Escobar, ah, ele odiava conduzir o
barco, especialmente à noite, dizia ter medo de que um espírito pensasse que
ele era o capitão e tentasse atraí-lo para o fundo do mar, hah, hah, hah, ah,
esse Escobar! Nunca vi mais covarde...
Nossa viagem correu tranquila até o
iniciozinho da madrugada quando caiu um verdadeiro pau d’água em cima da gente,
o rio ficou agitado, o barco começou a balançar de um jeito perigoso, água
estava entrando no convés, trovões gritavam sem parar e relâmpagos nos cegavam,
era como se o próprio Deus estivesse largando a sua fúria em cima da gente!
Agora, por que ele faria isso? Eu não sei. O que eu sei é que uma hora escutei
um grito assustado vindo de dentro da cabine, me esqueci do pedido da velha,
abri a porta com um chute e, bem, você não vai acreditar, rapaz, mas juro pela
alma da minha santa mãezinha que estou falando a mais pura verdade: tinha um
monstro dentro do círculo, parecia um homem-morcego, as suas asas eram enormes,
os seus olhos eram vermelhos como o sangue, os seus caninos pareciam ser mais
afiados que terçados e — eu odeio me lembrar disso — estavam cravados em um
bebê morto que a velha tinha trazido escondido para o barco.
O monstro largou o bebê, saiu do
círculo, bateu as suas asas e voou para cima de mim, tentou me morder, mas eu
não deixei, lutei com ele, peguei a minha faca, porque naquela época eu andava
para cima e para baixo com uma faca, e a enfiei bem no pescoço dele. Ismael,
Escobar e Tomé saltaram em cima do monstro, bateram nele com socos, chutes,
cotoveladas, cabeçadas e tudo aquilo que aquele bicho asqueroso merecia, mas
não foi o suficiente: abriu as asas e nos afastou para longe de si, ele me
empurrou com tanta força que bati a cabeça e caí do barco, afundei nas águas do
rio na mesma hora, estava todo zonzo, não conseguia nadar direito, pensei que
ia morrer, pensei sim, comecei a rezar para fazer a minha paz com Deus...
Até hoje eu não vi nenhuma mulher tão
linda como aquela, se é que ela era uma mulher mesmo, tinha cabelos vermelhos e
peitos lindos, inesquecíveis. Sorriu para mim, tomou as minhas mãos, me levou
de volta para cima da água e se despediu de mim com um beijo aqui atrás, senti
a minha pele queimar e virar essa cicatriz com o formato dos lábios dela, essa
é a marca dela.
E o que aconteceu com os outros? Tomé
morreu, o monstro o matou, Escobar também se foi, a velha se atirou em cima
dele e bateu na sua cabeça com uma garrafa de cachaça, Ismael quem me contou
isso, ele só ficou vivo porque ateou fogo no barco e pulou na água, se escondeu
nas sombras até o nascer-do-sol quando nadou de volta para o porto, chegou
pálido, cansado e todo machucado. Jurou que nunca mais pisaria em um barco, o
pobre Ismael, e nunca mais pisou.
Eu,
ao final da história, estava boquiaberto. Quer dizer, eu sabia que aquilo não
tinha como possivelmente ser verdade, contudo... O jeito como ele contou aquela
história, as pausas, a entonação da sua voz, a tristeza e a nostalgia em seu
olhar, tudo isso me fazia ponderar a possibilidade de ele ter verdadeiramente vivido tal episódio, mas
como...? Peixe Palhaço, homens-morcegos, velhas feiticeiras, sereias, nada
disso é real, é tudo folclore e nada
além de folclore.
—
Isso aconteceu de verdade? — eu,
inevitavelmente, perguntei.
—
Arram, aconteceu comigo, eu estava lá — disse o zelador, ficando de pé. — Se
for atrás de Ismael, ele contará a você a mesma história, vírgula por vírgula.
—
Mas... Mas... Mas como...? — era difícil manter a voz num volume aceitável para
aquele ambiente. — É óbvio que tudo isso é uma mentira?
O
zelador riu um “Hih, hih, hih, hih”.
—
É óbvio? Você não parece acreditar que seja tão óbvio assim, não, rapaz — ele
falou. — Está tremendo e não é de frio.
E,
de fato, eu estava tremendo de medo da chance de criaturas assim andarem entre
nós, compartilharem do nosso mundo, de alguma maneira, aquele homem havia tido
sucesso em retornar a mim os meus medos de infância.
—
Há muitos mistérios no rio, rapaz, e no mundo também. Aquilo que vemos no
dia-a-dia não é tudo que existe, há mais coisas além dessas. Muitas coisas — exibiu a palma da mão
esquerda, na qual se podia ver claramente uma tatuagem de aspecto tribal feita
com tinta preta. — Algum dia, rapaz, eu contarei a você todos os mistérios
desse rio que eu pude ver com os meus próprios olhos, mas, até lá, faça um
favor a si mesmo: vá para casa e tente ter uma boa noite de sono. Boa noite.

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