quinta-feira, 1 de novembro de 2012

História de Pescador



Eu deveria ter saído mais cedo da universidade naquele dia, um dos professores havia faltado e, assim, nós, os alunos, tínhamos sido liberados, arrumamos os nossos pertences com uma velocidade digna de Fórmula Um, levantamo-nos das cadeiras e, ao alcançarmos a saída do prédio, deparamo-nos com uma brincadeira de mau gosto da parte de São Pedro: um dilúvio desabou dos céus e nós, pobres coitados, não tivemos outra escolha senão retornar para as dependências da universidade.
Declinei educadamente, e com um esforço sobrenatural, o convite feito por um dos meus amigos para participar de um campeonato de ping-pong, rumando, ao invés disso, para a biblioteca com o intuito de me adiantar nos trabalhos individuais daquele semestre, peguei uma tonelada de livros, sentei-me em uma mais ou menos isolada, abri o caderno, empunhei uma caneta esferográfica preta comprada por mim no início do ano, respirei fundo, tentando reunir coragem e então comecei a estudar, perdendo, eventualmente, a noção do tempo, de modo que somente dei por mim quatro horas mais tarde. E nada de o aguaceiro ter terminado.
Distanciei a cadeira da mesa com um empurrãozinho, estiquei os braços e as pernas, estalei o pescoço, soltei um bocejo e tornei a olhar, agora completamente desanimado, para o emaranhado de papéis que havia brotado sobre aquela superfície de madeira velha, “Eu deveria estar jogando ping-pong”, pensei. Transformei um papel de rascunho em uma bolinha, esquadrinhei o andar, que era o segundo, por um cesto de lixo, encontrei-o não muito distante de mim, mirei na sua abertura e então lancei a bolinha de papel — errei por vários centímetros. Tudo bem, isso acontece.
— Por um acaso você não irá juntá-la? — uma voz rouca vindo detrás de mim perguntou. Eu, ao escutá-la, levei um susto, senti um frio subindo pela minha espinha e só não dei um pulo da cadeira por que... Na realidade, nem eu sei por quê. Olhei para trás e descobri um zelador parado ali, apoiava-se no seu esfregão e parecia ter algo em torno de quarenta, quarenta e um anos. — Ei, escutou o que eu disse?
Eu fiz que sim com a cabeça, levantei-me da cadeira, apanhei a bolinha de papel e a botei dentro do cesto de lixo, voltei ao meu lugar, o zelador me olhou como quem diz “Obrigado”, molhou o esfregão no balde de limpeza, então se ocupando de limpar o chão da biblioteca enquanto eu, mais desanimado do que nunca, limitei-me em focar o meu olhar em um ponto material qualquer, perdido em pensamentos triviais.
— Sabe, toda vez que cai uma chuva dessas, eu me lembro de quando tinha a sua idade, talvez fosse um pouquinho mais velho, e era um pescador — o zelador, de repente, falou, sua voz interrompeu o meu transe, retornando-me para o mundo da matéria. — Bons tempos, bons tempos. — havia um quê de nostalgia em suas palavras.
Endireitei-me na cadeira e me virei em direção a ele.
— Era uma vida muito diferente, a de pescador?
— Oh, se era! — ele, com uma risadinha, respondeu. — E ponha diferente nisso.
Imaginei-o, por um instante, vinte anos mais jovem, parado sobre o convés, uma mão segurando o mastro da embarcação e o outro, uma espada, então eu pisquei para me livrar de tal imagem, a qual era totalmente incorreta: o homem fora um pescador, não um pirata. Sinto que eu tenha assistido a filmes demais.
— Pelo visto, o senhor gostava bastante.
— Sim, sim, sim — disse. — Eu me sentia um verdadeiro mestre-dos-rios! — havia um brilho em seus olhos, certamente estava revivendo os episódios daquele seu passado distante. — Ah, rapaz, você não tem ideia de quantos mistérios há nos rios daqui! — tornou a molhar o instrumento de limpeza. — Mistérios que surgem diante dos nossos olhos em noites tempestuosas, de lua-cheia, de 29 de fevereiro, de Ano-Novo, e por aí vai...
“Histórias de pescador”, eu pensei, “Mas que clichê!”.
— O senhor encontrou algum desses, ah, mistérios?
— Muitas vezes — enrolou a manga do uniforme verde-escura, exibindo uma cicatriz sinuosa na pele morena. — Vê? Isso aqui é uma lembrança do meu encontro com o Peixe Palhaço. Sabe o que é o Peixe Palhaço?
— Não é o peixe daquele filme, Procurando Nemo?
— Com mil demônios, não! O Peixe Palhaço é um peixe maligno que nasceu do ódio e do sofrimento das vítimas da tragédia do Brigue do Palhaço — contou a mim. — Ele sai de sua gruta uma vez por ano na noite do dia 19 de outubro para se alimentar, ataca barcos, come pescadores e quaisquer outros azarados que estejam dentro do rio nessa noite — o zelador estufou o peito, orgulhoso. — Eu e o meu pessoal fomos uns dos poucos a sobreviverem ao ataque do Peixe Palhaço!
— Fascinante — apesar do tom intensamente irônico da voz, o zelador pareceu não ter notado o meu desinteresse pela sua fábula.
— E isso aqui — botou-se de costas para mim e apontou um dedo indicador cuja unha estava quase que completamente roída para outra cicatriz, uma situada na nuca e a qual possuía, estranhamente, o formato de lábios. — Ah, isso aqui tem uma boa história — ficou de frente para mim. — Quer ouvi-la? É uma boa história — tornou a dizer.
Olhei para os papéis em cima da mesa, depois para a chuva impiedosa além da janela, encolhi os ombros, desenhei um sorriso munido de falso interesse e disse que sim, “Eu adoraria escutá-la!”, o zelador apoiou o esfregão em uma coluna, sentou-se na cadeira posicionada à minha frente, juntou as pontas dos dedos e daí me contou a sua história de pescador:
Éramos quatro: eu, Ismael, Tomé e Escobar, a gente dividia um mesmo barco e os lucros de cada dia e, ah, aquele tinha sido um dia de lucro! Sentamo-nos em uma das barraquinhas de comida do porto para almoçar e assistir ao jornal, aí, do nada, uma velha negrona veio falar com a gente, disse que queria alugar o barco, e a gente, para navegar dali a duas noites, no Dia de Todos os Santos, pelo rio. Bem, dinheiro nunca é demais; então nós aceitamos na hora, “Fechado, minha senhora”, eu disse a ela.
Veio à noite do Dia de Todos os Santos, a gente se encontrou no porto, Ismael e Escobar, que eram os mais grandalhões da gente, ajudaram a carregar as tralhas da velha dentro do barco, puseram aquilo dentro da cabine, ela deu cinco reais para cada um como sinal de agradecimento e prometeu mais cinco reais para quem a ajudasse com outra tarefa. Ismael e Escobar bem que queria “abocanhar” esse dinheiro, mas não, eles já tinham ganhado a parte deles, era minha vez e a do Tomé de faturar um extra, assim entramos na cabine e seguimos as instruções da velha enquanto os outros dois iam pondo o barco para navegar.
Ela nos mandou desenhar uma listra vermelha que dava a volta nas paredes da cabine, depois traçar um círculo bem no centro do chão, daí pôr umas velas ali, aqui e acolá, disse também para que a gente pendurasse uns papeizinhos com uns símbolos estranhos no teto — colamos as cordas com fitas adesivas —, aí agradeceu, deu o nosso dinheiro e falou que de jeito nenhum deveríamos entrar na cabine antes do amanhecer. Ah, é! Eu me esqueci de mencionar isso: ela pagou cinquenta reais para cada um para que ficássemos navegando à deriva no rio das oito horas até o raiar do sol.
A gente se revezou no leme, primeiro eu, depois Tomé, então Ismael e, por fim, Escobar, ah, ele odiava conduzir o barco, especialmente à noite, dizia ter medo de que um espírito pensasse que ele era o capitão e tentasse atraí-lo para o fundo do mar, hah, hah, hah, ah, esse Escobar! Nunca vi mais covarde...
Nossa viagem correu tranquila até o iniciozinho da madrugada quando caiu um verdadeiro pau d’água em cima da gente, o rio ficou agitado, o barco começou a balançar de um jeito perigoso, água estava entrando no convés, trovões gritavam sem parar e relâmpagos nos cegavam, era como se o próprio Deus estivesse largando a sua fúria em cima da gente! Agora, por que ele faria isso? Eu não sei. O que eu sei é que uma hora escutei um grito assustado vindo de dentro da cabine, me esqueci do pedido da velha, abri a porta com um chute e, bem, você não vai acreditar, rapaz, mas juro pela alma da minha santa mãezinha que estou falando a mais pura verdade: tinha um monstro dentro do círculo, parecia um homem-morcego, as suas asas eram enormes, os seus olhos eram vermelhos como o sangue, os seus caninos pareciam ser mais afiados que terçados e — eu odeio me lembrar disso — estavam cravados em um bebê morto que a velha tinha trazido escondido para o barco.
O monstro largou o bebê, saiu do círculo, bateu as suas asas e voou para cima de mim, tentou me morder, mas eu não deixei, lutei com ele, peguei a minha faca, porque naquela época eu andava para cima e para baixo com uma faca, e a enfiei bem no pescoço dele. Ismael, Escobar e Tomé saltaram em cima do monstro, bateram nele com socos, chutes, cotoveladas, cabeçadas e tudo aquilo que aquele bicho asqueroso merecia, mas não foi o suficiente: abriu as asas e nos afastou para longe de si, ele me empurrou com tanta força que bati a cabeça e caí do barco, afundei nas águas do rio na mesma hora, estava todo zonzo, não conseguia nadar direito, pensei que ia morrer, pensei sim, comecei a rezar para fazer a minha paz com Deus...
Até hoje eu não vi nenhuma mulher tão linda como aquela, se é que ela era uma mulher mesmo, tinha cabelos vermelhos e peitos lindos, inesquecíveis. Sorriu para mim, tomou as minhas mãos, me levou de volta para cima da água e se despediu de mim com um beijo aqui atrás, senti a minha pele queimar e virar essa cicatriz com o formato dos lábios dela, essa é a marca dela.
E o que aconteceu com os outros? Tomé morreu, o monstro o matou, Escobar também se foi, a velha se atirou em cima dele e bateu na sua cabeça com uma garrafa de cachaça, Ismael quem me contou isso, ele só ficou vivo porque ateou fogo no barco e pulou na água, se escondeu nas sombras até o nascer-do-sol quando nadou de volta para o porto, chegou pálido, cansado e todo machucado. Jurou que nunca mais pisaria em um barco, o pobre Ismael, e nunca mais pisou.
Eu, ao final da história, estava boquiaberto. Quer dizer, eu sabia que aquilo não tinha como possivelmente ser verdade, contudo... O jeito como ele contou aquela história, as pausas, a entonação da sua voz, a tristeza e a nostalgia em seu olhar, tudo isso me fazia ponderar a possibilidade de ele ter verdadeiramente vivido tal episódio, mas como...? Peixe Palhaço, homens-morcegos, velhas feiticeiras, sereias, nada disso é real, é tudo folclore e nada além de folclore.
— Isso aconteceu de verdade? — eu, inevitavelmente, perguntei.
— Arram, aconteceu comigo, eu estava lá — disse o zelador, ficando de pé. — Se for atrás de Ismael, ele contará a você a mesma história, vírgula por vírgula.
— Mas... Mas... Mas como...? — era difícil manter a voz num volume aceitável para aquele ambiente. — É óbvio que tudo isso é uma mentira?
O zelador riu um “Hih, hih, hih, hih”.
— É óbvio? Você não parece acreditar que seja tão óbvio assim, não, rapaz — ele falou. — Está tremendo e não é de frio.
E, de fato, eu estava tremendo de medo da chance de criaturas assim andarem entre nós, compartilharem do nosso mundo, de alguma maneira, aquele homem havia tido sucesso em retornar a mim os meus medos de infância.
— Há muitos mistérios no rio, rapaz, e no mundo também. Aquilo que vemos no dia-a-dia não é tudo que existe, há mais coisas além dessas. Muitas coisas — exibiu a palma da mão esquerda, na qual se podia ver claramente uma tatuagem de aspecto tribal feita com tinta preta. — Algum dia, rapaz, eu contarei a você todos os mistérios desse rio que eu pude ver com os meus próprios olhos, mas, até lá, faça um favor a si mesmo: vá para casa e tente ter uma boa noite de sono. Boa noite.

Nenhum comentário:

Postar um comentário