quarta-feira, 15 de junho de 2011

Amizade


Eric era uma pessoa observadora, bastante observadora, na realidade. Exatamente por isso não demorou em perceber que Alessandra, uma amiga, estava um tanto triste nos últimos dias — agia como normalmente, entretanto ele conseguia ver a melancolia por trás do seu sorriso e, desgostoso com isso, tomou uma decisão.

— Nós faremos uma festa para a Alessandra — Eric, em uma quarta-feira à tarde, anunciou ao grupo.

— Quando? — Rodrigo, outro amigo, perguntou.

— Nessa sexta-feira — o rapaz respondeu.

— Não está muito em cima, não? — Gustavo, que era mais um amigo, ponderou.

— Está, mas se todo mundo ajudar, dará tudo certo — Eric proclamou. — Então, está todo mundo de acordo?

Houve um murmuro geral de concordância, o qual resultou num sorriso satisfeito da parte de Eric, este, por sua vez, começou a distribuir as tarefas de cada um no mesmo instante: Rodrigo ficou encarregado do bolo, Gustavo dos utensílios de plástico, Alberto se incumbiu da música, Augusto não teve escolha senão cuidar dos enfeites e, por última, Melissa... Bem, a única obrigação de Melissa era a de aparecer na festa no horário certo, pois ninguém realmente acreditava que ela teria a responsabilidade, ou até mesmo a memória, para ajudar nos preparativos da festa. Oh, bem, ninguém é perfeito.

Quinta-feira foi um dia corrido, uma miríade de complicações aconteceu (Eric, em virtude disso, praguejou contra a Lei de Murphy inúmeras vezes naquele dia): o bolo foi, acidentalmente, trocado por um de casamento ainda na confeitaria, Augusto pensou que pratos e talheres de plástico caiam na categoria de enfeites, comprando quinhentos destes e chapeuzinhos cônicos de papel, Gustavo acabou tendo de se desdobrar todo para arranjar enfeites de verdade (como salientado por ele), Augusto teve problema em encontrar um aparelho de som com entrada USB, a manicure de Melissa quase faltou a sua sessão com ela dado um problema familiar, Eric batalhou gloriosamente contra a completa ausência de organização que assombrava o seu apartamento desde a demissão da sua empregada doméstica e ainda teve de inventar uma boa desculpa para que a convidada de honra fosse à festa.

E, no final, tudo deu certo. Eric notou o desaparecimento de grande parte da tristeza nutrida por Alessandra que estava se sentindo particularmente descolada na cidade por não ser nativa da mesma, ela agradeceu o gesto dos amigos do fundo do seu coração e, para retribuir o mestre por trás daquilo, disse que o ajudaria a arrumar toda a bagunça resultante da festa.

— Sabe, eu ainda não acredito que vocês fizeram tudo isso — Alessandra, pondo um monte de latinhas dentro de um saco de lixo, comentou. — Para que tanto trabalho?

Eric, o qual estava lutando para retirar uma mancha do assoalho, simplesmente encolheu os ombros como quem não tem certeza de como responder a tal pergunta.

— Mesmo assim, obrigada — disse Alessandra. — Eu adorei.

— Ótimo — falou Eric, concentradíssimo na mancha verde de aspecto gosmento cuja natureza era um mistério. — Apenas me faça um favor, okay?

— Claro. O que é?

O rapaz voltou sua atenção para ela, havia um descaracterístico teor de seriedade no seu olhar.

— Da próxima vez que você estiver para baixo, fale comigo, fale com qualquer um de nós — ele disse. — Nós somos seus amigos, você pode contar com o nosso apoio.

Ele esboçou um sorriso cansado no rosto, desaparecendo completamente com a seriedade de outrora, “Amizade é isso: estar ali pela outra pessoa”.



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