Em
meu sonho, nós ainda estávamos na escola. Éramos tão jovens! Tu deverias ter, o
quê, quinze, dezesseis anos? Com um cabelo grunge, um olhar tímido e um
jeito tão taciturno. Eu bem que tentei, no entanto como poderia não me
encantar contigo? E tu, em retorno, descobriu-se cativada com a minha completa
falta de tato. Eu preciso admitir, contudo, que, às vezes, tive meus momentos de
sorte, como quando toquei o teu rosto bem de perto com a desculpa de que queria
averiguar o matiz do teu olhar — um castanho tão belo, tão hipnotizante, algo
como o de uma sereia.
Tive
pena do meu “eu” onírico que, ao longo do dia, mal teve chance de contemplar a
tua graça, uma triste consequência da diferença de idade e também da colossal
inseguridade que nós sentíamos um pelo outro. Eu, com medo de me apaixonar. Tu,
com medo de eu mentir. Erros da juventude. Mas, afinal, o que seria da juventude
sem os seus erros? E os acertos... São tão raros, sim. E, por isso, tão
impactantes. Mesmo com todo aquele medo pulsando em nossos espíritos, tu
concordaste em me encontrar depois da aula e eu tive coragem de te esperar
aparecer.
Encontramo-nos
no nosso esconderijo perto do ginásio, eu sentia o meu coração tentar saltar
para fora do peito e tu tremias de uma ponta à outra. Lembro-me que, por um
momento, meu gêmeo-de-sonho cogitou que, talvez, tu mudaste de ideia, desse
meia-volta e fosse embora para nunca tornar a vê-lo. Que felicidade a dele
quando, ao invés disso, tu fechaste a porta do esconderijo e largaste a tua
mochila no chão empoeirado. Para ele, aquilo foi como Dorothy ao descobrir o
colorido de Oz.
Eu
acredito que isto estimulou-o a não hesitar, gargalhei ao testemunhá-lo
marchando em tua direção, decidido a te adorar. Ele te beijou avidamente, como
um homem perdido há uma eternidade no deserto e que, enfim, descobre um lago de
água doce. Tu gostaste do beijo e beijaste de volta e ainda mordeu os lábios
dele, delicada e divertidamente, como um beija-flor ao beber o néctar de uma flor.
Ele,
confiante, agarrou o teu cabelo e pressionou o corpo junto ao teu, tu trouxeste
tuas mãos para dentro da camisa dele, arranhou a pele juvenil, saboreando o
toque, ele mordeu o teu pescoço, tu gemeste, apertaste a nádega dele com
vontade, ele te premiu contra a parede, sorriu ao perceber o teu toque
guiando-o para encontrar a maciez do teu peito, lambeu os mamilos devagar, em círculos,
deleitando-se no teu gosto e na melodia do teu prazer, tu, em retorno, agarrou
o cabelo dele e tirou sangue das suas costas, um pequeno sacrifício a Qetesh, a
Erzulie, a Oxum, a qualquer deidade que estivesse bendizendo aquele festival de
amor, de luxúria, de calor, de hormônios borbulhando.
Em
algum momento, meu “eu” onírico removeu o cinto e tu baixaste os teus jeans,
ele acariciou a tua umidade, tu tremeste, mas não te deixaste te abalar,
tocaste o membro ereto e pulsante, apertou-o como quem diz “Isto me pertence”,
meu gêmeo-de-sonho riu ao perceber o intento e te beijou vigorosamente,
concordando. Ele te penetrou devagar, deixando-te aproveitar o sentimento, teu
íntimo, molhado e quente, aceitou com louvor e te impeliu a subir no colo dele,
entrecruzaste tuas pernas na cintura do meu “eu” onírico e, então, começou a
dançar para frente e para trás, para frente e para trás, para frente e para
trás, uma coreografia embalada pela música dos nossos “gritos felizes”.
Nós
sabíamos que aquilo não era correto. E tu também sabia. Inclusive, eu sussurrei
no ouvido do meu gêmeo-de-sonho, disse a ele que aquele era o momento de parar.
Ele não queria. Tu não querias. E, francamente, eu mesmo não queria. Eu queria
reviver aquele momento plenamente e, para tanto, meu “eu” onírico precisaria te
preencher com a semente dele, um jato de amor escaldante que te levou ao
êxtase. Ninguém se preocupou com as consequências daquele ato. Ninguém queria
pensar no futuro. Tudo o que queriam era aproveitar o momento, carpe diem.
Tu olhaste para ele no fundo dos olhos e declarou:
—
Eu acho que estou me apaixonado por você.
—
Eu acho que já me apaixonei por você há muito, muito tempo.

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